O desenvolvimento da Medicina somente é possível através de seu íntimo relacionamento com todas as outras ciências. Ao longo da história, inteligências dos mais variados matizes da atividade humana vêm prestando substancial contribuição ao seu avanço. Certamente gastaríamos centenas de páginas a enumerar nomes de matemáticos, filósofos, artistas, padres, químicos, físicos, biólogos, soldados, engenheiros, mercadores, vagabundos, enfim, todo tipo de gente não médica que deu algo de si à Medicina. Algumas figuras porém merecem destaque, em virtude do pitoresco que envolvem e da comprovação do enunciando de Carlyle que “o gênio é uma imensa aptidão para tomar as coisas com empenho”.
- Leonardo da Vinci (1452 – 1519). Gênio que se imortalizou no campo artístico, foi também grande arquiteto, geólogo, engenheiro mecânico e deu enorme contribuição à anatomia. Isso porque iniciou seus estudos anatômicos com aqueles olhos que podias ver além dos limites mortais, absolutamente sem das atenção aos conceitos galênicos que, tidos como dogmas intocáveis, embotavam o raciocínio dos anatomistas de então. Dissecou nada menos de 30 cadáveres (homens, mulheres e crianças) e fez desenhos admiráveis, até hoje não ultrapassados. Realizou injeção de cera líquida nas veias e cavidades cardíacas para seu estudo, e entre suas descobertas estão a cavidade única do útero ( Galeno dizia que eram duas, como em grande parte dos mamíferos) e as membranas que envolvem o feto “in utero”.
- Giambatista Della Porta (1540 – 1615). Físico inventor da câmara escura e da luneta ( esta, aos 15 anos de idade). Enunciou que a visão era devida a alguma coisa que penetrava no olho (a luz, no caso) e não a raios que partem dele, conforme se acreditava até então.
- Galileu Galilei (1564 – 1642). Físico, matemático, astrônomo, inventor do telescópio. Em 1610 concebera um instrumento para ver os órgãos dos animais muito pequenos. Em 1614 Détarde, que o visitou em Florença, relatou ter visto graças a esse instrumento “insetos tão grandes como carneiros, cobertos de pelos e com articulações angulares”. O naturalista Faber deu ao instrumento o nome de Microscópio. Tal descoberta tem a glória disputada por muitos outros nomes, entre eles Hooke (50 anos mais tarde) e classicamente Leeuwenhoeck que, na verdade, concebeu um instrumento que tinha poder de resolução até então nunca visto. Galileu foi também o primeiro a medir a freqüência do pulso, para o que inventou um instrumento que denominou “Pulsilógio”(funcionava com base em um pêndulo).
- René Descartes (1596 – 1650). Matemático e filósofo. Afora suas contribuições à matemática e às ciências naturais, enveredou pelo estudo da anatomia, e seu livro “De Homine” é considerado o primeiro texto de fisiologia, onde considera que todas as atividades do organismo são formas do movimento e que este está sujeito às leis da física e da matemática. É assim o patrono da medicina física (ou aitro-física).
- Antoni Van Leeuwenhoeck (1632 – 1723). Nunca freqüentou qualquer tipo de escola. Construiu o primeiro microscópio em alto poder de resolução (aumento de 200 vezes) e com ele descobriu os glóbulos sanguíneos , as fibras musculares, a estrutura laminar dos cristalino. Chamou o cristalino de “musculus cristalinus” pois, julgando sua estrutura estriada similar à dos músculos, achava que o mesmo mudava sua forma de maneira autônoma para focalizar os objetos (?). Descreveu ainda os protozoários e os espermatozóides. Destes últimos temos curioso relato do próprio punho:
“Tinham o corpo arredondado, porém mais rombudo na frente e mais afinado para trás, e eram providos de uma longa cauda, cerca de 5 ou 6 vezes mais comprida que o corpo; moviam para diante com movimentos serpentiformes de cauda, tal como o fazem as enguias quando nadam dentro d’água. Dito seja de passagem que o que aqui descrevo não foi obtido de nenhuma prática pecaminosa de minha parte; os excessos que a natureza me proporcionava no curso de minhas relações conjugais, é que favoreceram essas minhas observações”.
- Diacinto Cestoni (1637 – 1718). Laborioso farmacêutico que descreveu o ácaro como agente da sarna. Na história da Medicina foi a primeira prova de organismo vivo causando doença.
- Felipe Fontana (1720 – 1805). Padre, naturalista. Estudou o veneno das víboras e foi o primeiro a descrever a célula como corpo único provido de mancha no centro, antevendo seu núcleo. Descreveu os canalículos nos rins e o ângulo da câmara anterior do olho.
- Gregor Mendel (1822 – 1884). Monge agostiniano que, baseado na hibridação dirigida das ervilhas que plantava no convento, teve a lucidez de estabelecer os princípios fundamentais da genética.
- Stephen Hales ( 1677 – 1761). Reverendo, pároco de Teddington de 1709 a 1761. Além de excelente sacerdote, enriqueceu a ciência com sua imaginação fertilíssima, principalmente no que diz respeito à circulação do sangue, ao fluxo da seiva nas plantas e à química da respiração. Fez a primeira medida da pressão arterial (em animal), cuja descrição podemos apreciar em suas palavras:
“Em dezembro fiz amarrar uma égua de cabeça para baixo. Ela tinha 14 palmos de altura, cerca de 14 anos de idade, não era nem muito magra nem muito gorda; e possuía uma fístula nas espáduas. Tendo deixado aberta a artéria da coxa esquerda, a cerca de oito centímetros do ventre, introduzi na mesma um tubo de latão, de cerca de quatro milímetros de diâmetro ao qual, por meio de outro tubo de latão rigorosamente adaptado, fixei um tubo de vidro de diâmetro quase igual e que tinha três metros de comprimento. Feito isso, desatei a atadura da artérias e o sangue subiu no tubo, perpendicularmente, dois metros e setenta e cinco centímetros acima do nível do ventrículo esquerdo do coração".
A primeira vez porém que se mediu a pressão arterial em homem foi em 1856, procedimento realizado pelo médico Faivre, introduzindo um tudo na artéria femural, durante uma amputação de perna. O tubo estava ligado a uma coluna de mercúrio que acusou exatamente 120 milímetros, cifra até hoje considerada padrão.
- Manuel Garcia (1805 – 1906). Grande professor espanhol de canto, que residia em Paris. Conseguiu examinar a própria laringe com auxílio de dois espelhos, um dos quais com longa haste metálica, observando o movimento das cordas vocais enquanto cantava. Inventou assim o laringoscópio (ou espelho laringeu) em 1852, proporcionando grande avanço clínico à otorrinolaringologia, que estava nascendo então como especialidade médica. É incrível que tal procedimento, que pode parecer tão simples,não tivesse sido tentado até então pelos médicos, que tinham já o hábito de examinar cuidadosamente a garganta. Mais tarde, em suas memórias, Garcia descreveu o episódio:
“Dominado por um desejo renitente tantas vezes reprimido como irracional, eu vi, de súbito, os dois espelhos do laringoscópio urgirem aos meus olhos como uma visão, na posição em que atualmente colocam. Corri ao fabricante de instrumentos cirúrgicos e perguntei se tinha um espelho pequeno de cabo comprido, respondendo-me ele que tinha espelho de dentista, que restara da Exposição de Londres de 1851. Tendo obtido também outro espelho de mão, regressei à casa impaciente por começar as experiências. Coloquei o espelhinho de cabo comprido de encontro à úvula (campainha da garganta), depois de fervê-lo em água e enxugá-lo cuidadosamente. Projetando depois um raio solar sobre a sua superfície, com o auxílio do espelho de mão, pude contemplar, com grande alegria, a glote completamente aberta e tão bem exposta, que tornava visível uma boa parte da traquéia. Quando o meu entusiasmo se moderou, comecei a examinar o que tinha diante dos olhos. E testemunhei maravilhado como a glote mansamente se abria e fechava, e movia no ato da fonação”.
- Herman Von Helmholtz (1821 – 1894). Um dos maiores físicos e fisiologista de todos os tempos. Enunciou a aplicação universal da 1ª lei da termodinâmica; escreveu trabalhos fundamentais sobre a fisiologia da visão e audição. Foi o inventor do oftamoscópio, instrumento que criou nova era na oftamologia.
- Wilhelm Konrad Roentgen (1845 – 1931). Professor de física em Wurzburg (Alemanha) fez em 1895 uma das maiores descobertas de toda a ciência médica: os raios que atravessam objetos e impressionam chapas fotográficas. Como eram completamente desconhecidos, Roentgem chamou-os de Raio X, nome que se mantém até hoje.
- Pierre (1859 – 1906) e Marie (1867 – 1934) Curie. Casal franco-polonês, detentor do Prêmio Nobel de física em 1904 pro seu estudos sobre a radiatividade. Sua contribuição foi de excepcional para o tratamento de lesões cancerosas. Fato único na história do Nobel, Marie voltou a ganhá-lo em 1911. Mais tarde (1933) sua filha Irene, juntamente como o marido Frederic Jolliot, também o arrebatou por conseguir transmitir radioatividade a substâncias que não a tinham naturalmente. Tanto Marie como Irene foram mártires da ciência, tendo sucumbido ambas à leucemia induzida pela radiação a que se expuseram ao longo de anos de pesquisa.
- Thomas Alva Edison (1847 – 1931). Um dos maiores benfeitores da humanidade, é autor da célebre frase “o gênio é 1 por cento de inspiração e 99 por cento de transpiração”. Quase completamente surdo desde a infância , era absolutamente autodidata, não tendo freqüentado escola por mais de 6 meses em toda sua longa vida. Trabalhando 16 horas por dia (detestava dormir!), registrou nada menos de 1033 patentes, entre os quais o fonógrafo, a lâmpada incandescente, o microfone, o mimeógrafo, o filme fotográfico, tendo ainda aperfeiçoado decisivamente o telefone, o telégrafo e a máquina de escrever. Foi ele quem viabilizou a aplicação clínica de Raios X, descobrindo o tungstato de cálcio com o qual construiu o fluoroscópio (ou Radioscópico). Se as grandes idéias tivessem que esperar o voto favorável da maioria, ficariam para sempre desconhecidas; o jornal Pall Mall Gazette publicou na época:
“Já estamos doentes de ouvir falar em raios Roentgen (Raios X). Agora diz-se que Edison descobriu uma substância chamada Tungstato de Cálcio (ó nome repulsivo!) que tem o poder de produzir os tais raios. De maneira que qualquer pessoa pode ver, a olho nu, os ossos das outras, bem como enxergar através de uma sólida parede de maneira de 20 cm de espessura. Não é preciso acentuar quão revoltante e imoral é essa história. O melhor seria, talvez, que todas as nações civilizadas do mundo entrassem em acordo para, reunidas, queimarem todas as obras sobre os raios Roentgen, fuzilarem seus descobridores e atirassem em maio do Oceano toada quantidade de Tungstato que pusessem reunir na face da Terra”.
Aliás, o alarde da imprensa leiga em geral acerca dos poderes indiscretos dos Raios X foi enorme. Os jornais da época publicaram “charges” como por exemplo, a de um casal saindo do cinema sendo observado por um indivíduo portanto uma câmara supostamente de raios X, na tela da qual apareciam os observados com os ossos à mostra, por dentro de suas roupas diáfanas. Na Inglaterra surgiram no comércio roupas íntimas femininas com camada protetora radiopaca (impenetráveis aos raios X). isso sem contar os absurdos de seu uso indiscriminado pro ignorância ainda de seus efeitos deletérios: algumas sapatarias de New York mandaram fazer raioscópios onde as madames introduziam os pés para observarem se os osso dos mesmos estavam bem “acomodados”dentro dos novos calçados!
Por outro lado, assim como figuras não-médicas prestam valiosíssima contribuição ao desenvolvimento da Medicina, inúmeros médicos destacam-se em outros campos de atividade. François Rabelais (1494 – 1553), médico formado em Montpellier em 1530, exerceu a medicina com sucesso no Hospital de Lyon. A genialidade de sua obra satírica condecorou-o na posteridade. Assinava seus escritos: François Rabelais, Docteur em Médicine. Sua principal produção foi “Vida de Gargântua e Pantagruel”.
Francesco Redi ( 1621 – 1689) é considerado o pai da helmintologia, tendo descrito mais de uma centena de parasitas intestinais do homem e dos animais. Não fôssem seus trabalhos científicos, ficaria igualmente conhecido para sempre, considerado que é um dos maiores poetas italianos do seu século.
No Brasil temos vários exemplo. Pedro Nava (1903 – 1984) e João Guimarães Rosa (1908 – 1967), ambos médicos formados em Belo Horizonte, foram exepcional memorialista o primeiro, e um dos maiores fenômenos de literatura mundial o segundo. Isso sem esquecer Juscelino Kubitschek de Oliveira (1902 – 1976) que, médico também formado em Belo Horizonte, foi excelente urologista, tendo realizado curso de especialização em Paris. Destacou-se porém como um dos maiores estadistas brasileiros, dando o impulso inicial da escalada desenvolvimentista do nosso País.
Uma figura no entanto merece especial destaque. Na Divina Comédia, Dante (1265 – 1321) diz que o único Papa contemporâneo que ele encontrou no Paraiso foi João XXI (Paradiso, canto XII, 135). Tal Papa não era outro senão Petrus Hispanus (nascido em 1210 em Portugal e falecido em 1276 em Viterbo), o único médico da história a receber a tiara e assentar no trono papal. Sucedeu a Adriano V em 1276, tomando o nome de João XXI, morrendo no fim de 8 meses. Deu colaboração importante à medicina de época e era oculista. Ainda existe na biblioteca do Vaticano seu manuscrito do “Liber de Oculo”, cujos ensinamentos forma aproveitados por Guy de Chauliac e Michelangelo.