Português
 Francês



O Nascimento da Escrita

A partir do pictograma e do ideograma, a grande aventura
da criação desse instrumento básico para preservar e transmitir
a memória dos povos, seu pensamento e sua cultura


Por Jean Bottéro
Tradução de Celso Paciornik

O último documento da escrita “cuneiforme” própria da antiga Mesopotâmia é uma espécie de almanaque astronômico em que estão anotados, mês a mês, os movimentos dos astros, o que permite datá-lo exatamente no ano 75 d.C. Ele constitui um marco de uma notável aventura do espírito iniciada 32 séculos antes nessa mesma região e que representa um dos pontos altos da história do pensamento. Os escritos mais antigos que até hoje se conhecem foram encontrados em 1931, nas ruínas da cidade de Uruk (hoje Warka), em pleno deserto, a meio caminho entre Bagdá e Basra. Contam-se hoje cerca de 3 mil peças, distribuídas por quatro ou cinco séculos.

Eles são os testemunhos, na origem, de uma das descobertas mais revolucionárias e mais fecundas do gênio humano: a escrita, o meio de materializar e fixar o pensamento e difundi-lo no tempo e no espaço, além dos limites estreitos da tradição oral, que requer a presença simultânea daquele que fala e daquele que escuta e expõe o que é dito a imprecisões, incertezas e deformações.

Esses primeiros passos num caminho tão novo e promissor se apresentam sob a forma de modestas plaquetas de argila seca com cerca de 10 centímetros de lado, em média, sobre as quais foram riscados sinais com um objeto pontudo, quando o material ainda estava mole. Nesses sinais ainda é possível identificar muitas representações esquemáticas de todo tipo de objeto: a cabeça, a mão, o pé, o pênis do homem, o triângulo pubiano da mulher, animais , plantas, vasos, navios, o perfil de montanhas ou, ainda, um sistema bastante transparente de números. Esses esboços, a que chamamos pictogramas, surgem na escrita de uma longa prática anterior de pintores ou de gravadores que muito antes já tinham aprendido a estilizar, como artistas, aquilo que queriam representar da natureza ou da cultura, no bojo de vasos ou ao longo dos pequenos cilindros de pedra que na região eram rolados sobre argila para selar e autenticar.

Outros desenhos, que, a nossos olhos, não parecem remeter a nenhuma realidade determinada, reproduzem traçados elementares ou arbitrários, ou aquelas pequenas fichas arcaicas encontradas em grande quantidade e que serviam para facilitar os cálculos, convencionalmente diferenciadas conforme aquilo que pretendiam representar por figuras simples: por exemplo, uma pastilha marcada com uma cruz para simbolizar o item “gado”.

A era da escrita propriamente dita, que os arqueólogos remontam a cerca de 3200 a.C., na Mesopotâmia, começou quando um gênio, que nunca saberemos quem foi, considerou que essas imagens, usadas pelos ceramistas ou por contadores, podiam ser utilizadas para evocar uma idéia, uma representação do espírito. E que, por isso, para se traduzir de uma forma mais geral “todas” as representações do espírito, “todo”o pensamento, bastaria sistematizar essa descoberta. Com esse fim, era preciso uniformizar os desenhos o suficiente para torná-los identificáveis à primeira vista. De fato, nos tabletes inscritos, todas as cabeças de homem se parecem, da mesma forma que todos os triângulos pubianos e todos os perfis de montanhas, o que não ocorre, porém, com os desenhos em vasos e sinetes. Como era praticamente impossível “esboçar” dessa maneira todos os objetos do pensamento, o conteúdo total do ambiente, foi preciso realizar uma escolha, decerto, mas tomando cuidado para que a seleção dos sinais não diminuísse em nada as possibilidades de significação.

Os inventores da escrita encontraram alguns meios para isso. Com uma simples marca, eles particularizavam o valor de um único e mesmo esboço. Por exemplo, sublinhando com um traço o local da boca na imagem da cabeça. Recorrendo ora à natureza das coisas, ora a alguma convenção, eles multiplicaram as significações de um mesmo desenho: o pé do homem bastava para evocar não somente a marcha, mas o estar de pé, o transporte, a estrela simbolizava o céu, inclusive tudo aquilo que está no alto, superior, até mesmo o sobrenatural.

Imitando os artistas, eles também se ocuparam em justapor sinais para compô-los como pequenos quadros cujo conjunto representava algo mais que os elementos separados ou uma coisa diferente deles: o pão diante da boca significava comer, e a água acompanhando o olho representava as lágrimas. Chamamos de ideogramas os caracteres de uma tal escrita, em que a significação vai além da representação imediata. Assim é que na Mesopotâmia, por volta de 3200 a.C., foi criado, pela primeira vez no mundo, um “sistema de sinais”, digamos de ideogramas uniformizados, escolhidos, cada um deles ligado a um certo número de significações, que permitiam reproduzir, materializar e fixar o pensamento: a primeira escrita.

Um milhar de caracteres diversos parece ter sido suficiente. Esse número relativamente baixo se explica, sobretudo, pelo uso primitivo da escrita assim “inventada”. Deixando-se de lado, na massa de tabletes arcaicos, um pequeno número onde se vêem apenas, relacionados por sua forma, sinais diferentes alinhados que compõem listas manifestamente reservadas aos usuários da escrita para memorizar os sinais dela – ancestrais muito antigos de nossos abecedários –, quase todos esses documentos casam números e sinais. Referem-se, claramente, a operações mais ou menos complexas de transferências de bens. Eles também permitam perceber que na Mesopotâmia a escrita foi desenvolvida, a princípio, como prolongamento e instrumento da contabilidade, uma ajuda contra as falhas da memória ante os movimentos incontáveis de bens de consumo e de uso, numa região famosa pela produtividade e pela complexidade econômica. Em seu estado original, a escrita dos antigos mesopotâmicos era, pois, ideográfica: seus caracteres remetiam diretamente às “coisas”, e não às “idéias” que delas se fazia, um pouco como nossa mão com o indicador apontando para indicar “a direção a seguir”.

Semelhante forma de escrever tem a vantagem de que todos a compreendem, pois ela não passa pela língua. Mas, pela mesma razão, ao se contentar em colocar as coisas lado a lado por meio de seus sinais representativos, ela é ainda bastante imperfeita e apenas capaz de estabelecer os marcos de um discurso cujo entendimento total é reservado aos que têm na memória o que ela representa. Sim, porque eles são os únicos a nela inserir, de cabeça, as informações concretas que ela não pode registrar e sem os quais o verdadeiro sentido da história é ofuscado. A escrita mesopotâmica foi inventada primeiramente como uma técnica mnemônica, um mero auxílio à memória, o que, de resto, se encaixava perfeitamente nas necessidades econômicas e de memorização de seus primeiros usuários, já que, antes de tudo, eles precisavam manter os negócios em ordem, registrar os objetos dessas movimentações e as quantidades de entradas e saídas.

Para ultrapassar um estágio ainda rudimentar e chegar à expressão do pensamento total tal como se reflete na linguagem, era preciso que a escrita fosse destacada das coisas para se articular com base nas palavras da língua. Somente estas últimas poderiam fazer repercutir o pensamento em todas as suas nuances e sutilezas. Entre as “palavras-cheias”, que designam as realidades, ela tem com que intercalar, à sua maneira, “palavras vazias” ou elementos que assinalam os dados inacessíveis à simples ideografia: as relações das coisas entre si e com o sujeito falante, e também com outros. A escrita ideográfica só consegue reunir os sinais da “mulher”, do “pão”, do “pé” e da “montanha”, o que não nos informa grande coisa, se desconhecermos os acontecimentos. Mas ela nos recorda, se vivemos a coisa, que se trata de “minha” mulher, “a quem está destinado” o pão “que eu” fui buscar “na” montanha. Somente o discurso articulado pode fornecer todos os dados para tornar precisa a mensagem e dispensar o recurso à memória. Mas língua é falar, não só ver e imaginar: só se pode penetrar nela, graficamente, na medida em que se domina a fixação material, nela, não mais de imagens apenas, mas de sons, os “fonemas”, como dizem os especialistas.



A constituição do “silábico”

Na Mesopotâmia – onde a língua usual era, então, o sumério – parece que se chegou a ela apenas um século ou dois depois do surgimento da ideografia. Isso aconteceu pela simples, mas genial, observação de que um sinal escrito não evoca somente a coisa que ele representa, diretamente ou não, mas também seu nome, uma combinação de sons na língua falada, e que se pode, portanto, separá-lo de seu conteúdo real para chegar a seu conteúdo fonético. O sumério favorecia esse deslocamento porque uma parte do seu vocabulário era monossilábica, como o chinês: a para “água”; ab para “vaca”; lu para “homem”; dug para “vaso”. Além disso, um certo número desses vocábulos era mais ou menos homófono, ou seja, tinha o mesmo som – sem que saibamos bem como eram distinguidos na fala: os conceitos de “marcha”, “fabricação”, “montão de ruínas”, “palavras”, às quais correspondia igual número de desenhos diferentes, eram enunciados, aparentemente, como DU.

Esse estado de coisas facilitava o uso dos sinais por seu valor fonético de sílabas simples, o que não é possível com palavras polissilábicas: adamim, por exemplo, que quer dizer “disputa”, não era utilizável foneticamente, mas podia ser escrita com os sinais a (“água”), da (“avizinhar-se”, “aproximar”) e mim (“dois”). Com efeito, num tablete de cerca de 3000 a.C., marcou-se perfeitamente o sinal de “flecha” num contexto em que devia se tratar de “vida”: em sumério, o mesmo som “ti” remetia, por pura homofonia, tanto a uma como a outra.

Assim, da escrita meramente ideográfica passou-se à escrita fonética, da escrita das coisas à escrita das palavras: um avanço considerável! Podia se transcrever, dali em diante, toda a língua, e a escrita, num sistema que chegara assim a sua plena e perfeita definição: um sistema de sinais apropriados para materializar e fixar o pensamento em toda sua extensão, tal como ele é exprimível pela língua. Teria sido possível então eliminar totalmente qualquer traço da pesada e insuficiente ideografia primitiva, escolhendo, no conjunto dos caracteres, aqueles cujo valor fonético fosse suficiente para representar todas as combinações silábicas do sumério. Ter-se-ia constituído assim – como fizeram, por exemplo, os japoneses, que com 74 sinais podem cobrir toda sua língua – um “silabário”: um apanhado de todos os sinais que marcam uma sílaba diferente. Uma centena, quando muito, teria bastado, e ter-se-ia à disposição uma escrita perfeita, bastante leve e manejável.



O desenho como criação

Porém as coisas não se passaram assim. O uso fonético da escrita, por mais promissor e libertador que fosse, foi considerado um procedimento apenas acessório, próprio para suplementar, em caso de necessidade, a ideografia, mas sem a substituir: ela continuou sendo a regra, e a escrita fonética, a exceção. Também se conservou o pesado aparato da origem, um pouco reduzido, mas nunca aquém de um bom meio milhar de sinais.

São muitas as razões para essa estagnação, para esse afastamento de um progresso libertador. Talvez – e temos no curso da longa história da Mesopotâmia alguns indícios que nos levaria a crer nisso – se tenha ficado obcecado pelo realismo da escrita na sua concepção original: sua influência direta sobre as coisas. Os antigos mesopotâmicos não distinguiam fundamentalmente, como nós, o nome, pronunciado ou escrito, do objeto que ele nomeava: ambos eram, a seu ver, a dupla face de uma mesma realidade. Desenhar ou designar um vaso era, no entendimento deles, mais do que afirmar a existência desse vaso, era provocá- la. A seu ver, a escrita ideográfica primitiva, diretamente articulada sobre as coisas era, de certa maneira, criativa. Esse fascínio deve ter levado ao conservadorismo – a nossos olhos embaraçoso e retrógrado -, que conferia toda importância à ideografia.

Mas havia mais: assim como a escrita chinesa para o chinês, ela convinha perfeitamente à língua suméria dos inventores e dos primeiros usuários da escrita. O sumério é uma língua “isolante”, na qual as palavras permanecem invariáveis qualquer que seja sua função no discurso: dumu, que significa “criança”, permanecia dumu fosse ela o sujeito ou o complemento de um verbo ou de um nome, masculino ou feminino, singular ou plural: essas noções gramaticais eram marcadas ora por “palavras vazias” antepostas ou pospostas a dumu, ora por anotações no decurso da frase. Podia-se, então, para escrever “criança”, contentar-se com o esboço que lhe servia de ideograma, sendo que a grafia fonética não tinha grande utilidade – tanto que, por muito tempo e, de forma natural, de acordo com o papel original de auxiliar de memória da escrita, no mais das vezes ela se limitou a registrar as “palavras vazias”, a lembrança ou o contexto, suficiente para garantir a compreensão do texto.

O que contribuiu para modificar semelhante situação foi o uso da língua acádia. É sabido que na região, ainda no começo do III milênio a.C., encontravam-se em simbiose, em processo de edificação conjunta, por seu mútuo aporte de uma civilização comum, duas população muito diferentes: os sumérios, de origem e ancestrais desconhecidos, e os semitas, a que chamamos “acádios”, imigrados das franjas setentrionais do Grande Deserto sírio-árabe. Menos inventivos e, aparentemente, menos ativos que os sumérios, sua língua era de um tipo muito diferente da de seus vizinhos: as relações das “palavras cheias” entre si e com o sujeito falante eram marcadas, em grande parte – como no latim e em outros idiomas pela “declinação” e “conjugação” -, por formas diversas que as palavras tomavam segundo seu papel na frase.

“Criança”, que se dizia mâr, articulava-se como mâru, quando o termo era sujeito de um verbo; como mâra, quando era seu complemento; como mâri, quando estava sob a dependência do nome etc. Um único ideograma podia, pois, bastar para designar claramente todas suas formas e eliminar a imprecisão da frase: era então que a grafia fonética própria para precisar os conceitos com exatidão (ma-ru; ma-ra; ma-ri...) adquiria todo seu valor, tornando-se insubstituível.

Quando os sumérios quiseram transcrever palavras ou nomes acadianos, ou quando os acádios, aculturados em relação a seus vizinhos mais avançados que eles no assunto, foram iniciados na escrita, o recurso às capacidades fonéticas destes foi inevitável. Dessa forma, com o tempo e, sobretudo, diante do fato de, na região, os sumérios terem siso reabsorvidos progressivamente pela maioria acadiana, cada vez mais o uso do sumério foi abandonado em favor do acádio, e a ideografia foi relegada em favor da escrita fonética.



Mudança formal

Antes de se dizer algumas palavras sobre a evolução do sistema é preciso ao menos assinalar que ele sofreu, ao longo do primeiro terço ou da primeira metade do III milênio a.C., uma modificação bastante profunda, mas apenas no que se refere à forma. Na origem e durante muitos séculos, os caracteres eram “riscados” com um objeto pontudo, como se escrevêssemos com um lápis, mas aplicando força. Talvez para eliminar os incômodos transbordamentos de argila ao longo dos traçados decorrentes desse processo, decidiu- se, sem dúvida muito lentamente no começo, “imprimir” os sinais com bisel na pasta mole. Esse procedimento suprimia todas as curvas, que eram então decompostas em retas, e fazia de cada sinal um agregado de pequenos traços horizontais, verticais e oblíquos regularmente alargados no topo: cada um era formado, portanto, de elementos com uma ponta fina de flecha invertida, prego ou cunha. O que valeu à escrita o qualificativo de “cuneiforme”.

Uma tal estilização – um pouco como aquela, a pincel, dos esboços primitivos do chinês – transformou por completo o aspecto dos caracteres: de simples silhuetas que ainda evocavam suficientemente bem os contornos do objeto que reproduziam e significavam, tornando-se amontoados de “pregos”, sem a menor evocação de realidades da natureza ou da cultura – traços abstratos, desencarnando totalmente a escrita. No correr do tempo os escribas e copistas, por etapas e para sua comodidade, não pararam de reduzir-lhes o número de marcas e de simplificar-lhes o traço. Transformação de tal forma radical que, na mesma época, ou, talvez, um pouco depois do III milênio, por uma razão que nos escapa, operou igualmente uma mudança de direção na escrita.

Nos tabletes mais antigos escrevia-se em colunas de cima para baixo e da direita para a esquerda, como no chinês. De alguma forma, mudou-se a posição do tablete usado para escrever, de maneira que não somente as colunas se tornaram linhas escritas da esquerda para a direita como fazemos hoje como também a orientação principal dos sinais mudou, o que resultou na sua redução a traços abstratos, tornando-os absolutamente irreconhecíveis e definitivamente afastados do real, ou seja, criações de valor arbitrário.

A escrita cuneiforme foi definitivamente organizada durante o III milênio. Por etapas que podemos às vezes identificar, ela equilibrou seus recursos entre os ideogramas ( a que nunca renunciou) e os valores fonéticos de tal maneira que, de simples e modesto auxílio à memória que fora no começo, se tornou uma escrita verdadeira e perfeita, capaz não só de recordar o conhecido, mas de anotar e apreender o novo. Além disso, nessa região em que reinava, desde a invenção primitiva, uma verdadeira paixão pelo escrito, ela foi utilizada amplamente e com entusiasmo, durante 32 séculos e até a morte da civilização da qual foi uma das jóias, por uma vasta literatura em todos os gêneros: dos documentos de negócios aos mitos; das cartas aos cantos religiosos; dos “exorcismos” aos “tratados científicos” ou “manuais” técnicos. Até hoje foi encontrado meio milhão de suas peças, do pequeno caramelo de argila de 2 centímetros de lado ao vasto tablete de quase 40 centímetros de altura por 25 de largura.

Segundo as épocas e os gêneros, as tradições locais e as escolas ou os níveis dos escribas, a repartição dos ideogramas e das cunhagens silábicas variou. Houve, por exemplo, um momento entre os séculos XIX e XVII antes da nossa era em que, no norte da região, na Assíria, os secretários dos negociantes, dos quais se encontraram as peças de arquivos aos milhares, utilizaram um verdadeiro silabário: 115 sinais de valor silábico suficientemente unificado e um número muito reduzido de ideogramas. Mais tarde, no I milênio, para obras eruditas em especial, foi forjado um estilo de escrita quase estenográfico, ao mesmo tempo erudito e abreviado, no qual muitos substantivos e verbos eram transmitidos por ideogramas com o recurso ocasional, quando necessário, aos valores fonéticos dos sinais, sem prejuízo da clareza do texto.

Mas, como se percebe, o sistema jamais abandonou sua ideografia original. Conseqüentemente, permaneceu incômodo e árduo, com seu meio milhar de caracteres, todos eriçados de pontas e sem se parecer com nada, cada um dotado de um número às vezes incômodo de valores ideográficos em sumério e em acadiano, de um lado, e fonéticos, de outro. Sem falar dos homófonos relativamente numerosos e de outras fontes de ambigüidades para as quais, é preciso dizer, os escribas encontraram diversos ornamentos que visavam melhorar a clareza, mas prejudicavam a simplicidade do grafismo.



Uma arte de poucos

O resultado dessa sobrecarga e dificuldade foi que, na região - esta não foi certamente a única razão e a ela se misturam considerações econômicas e sociais -, a escrita jamais foi popular. Ler e escrever, atividades conexas e praticamente indissociáveis, não eram uma possibilidade aberta a todos, mas uma profissão reservada a um pequeno número de iniciados e para a qual as pessoas se preparavam com longos estudos e incontáveis exercícios. Encontramos testemunhos disso: deveres de estudantes, por exemplo, que se exercitam para reproduzir, com maior ou menor sucesso, os traços firmes e elegantes do mestre.

Esses especialistas da escrita não eram do mesmo nível. Uns eram simples copistas, às vezes até especializados nas peças jurídicas, nas cartas, nas transcrições de obras propriamente literárias. Outros eram capazes de compor estas últimas, ou “tratados” eruditos, sendo verdadeiros letrados e, como dizemos, “intelectuais”. O resultado dessa situação é que tudo que encontramos dos 32 séculos de literatura mesopotâmica – desde a modesta contabilidade cotidiana até as mais volumosas e imortais obras-primas do pensamento e do estilo, como Ninurta e as Pedras, o Poema de Atrahasis, a Epopéia de Gilgamesh, o Código de Humurábi, a Epopéia da Criação, o Mito de Erra – está ligado a esses profissionais da escrita. Reflete primeiramente suas reflexões, seus problemas, suas criações, ainda que, vivendo entre a multidão que não sabia nem podia ler ou escrever, eles devessem, em suas composições, traduzir mais ou menos obliquamente sua visão das coisas, jamais saberemos até que ponto.

É a eles, mais que outros, nessa longa caravana de mais de 3 mil anos, que devemos ligar estreitamente e imputar essa admirável e poderosa civilização nas origens da nossa. Ela existiu enquanto teve seus escribas, detentores dos segredos da velha, pesada e árdua escrita cuneiforme. Quando morreu o último deles, talvez o autor do almanaque já citado, esse enorme e admirável edifício proveniente da profundeza das eras extinguiu-se também, de tanto que era inseparável da escrita que havia inventado – não somente a sua escrita, mas a escrita pura e simples. Entretanto, 1.500 anos depois, pelo menos, um outro povo do Oriente Próximo, os fenícios, encontrou o meio mais genial, o mais promissor, o mais fadado a um futuro brilhante, até nós, de simplificar radicalmente a escrita: empurrando a análise do discurso até seus elementos fonéticos primários – ainda que impronunciáveis isoladamente – para dar, a cada um, um signo que o tornou, “materialmente”, o alfabeto.

Texto publicado na Revista História Viva
http://www.uol.com.br/historiaviva/

História Viva Grandes Temas
Edição Especial Temática nº 6  

Fale Conosco
Endereço: Rua Matias Cardoso, 129 - conjunto 1001/1003, Bairro Santo Agostinho   Telefone: 55 31 3292-0530 (de 14h às 17h)
E-mail: clinica@psicanaliseehospital.com.br
Ver Mapa >>
Copyright 2009 - Clínica de Psicologia e Psicanálise - Hospital Mater Dei - Belo Horizonte / MG