Antes da internet, livros eram nossa única fonte de pesquisa e o único veículo capaz de registrar a história. Isso criava alguns problemas. Primeiro, os livros se preocupavam em registrar apenas as coisas grandiosas. Fatos corriqueiros como o dia-a-dia de um garoto como você não pareciam ter importância, e as informações que temos sobre isso hoje são resultados de uma pesquisa intensa, em documentos como cartas e diários, que às vezes precisavam ser reconstituídos. Um outro problema é que livros costumavam ser escritos por vencedores. Assim, tínhamos acesso a apenas um lado dos eventos e uma grande parte da história perdida.
Hoje, isso mudou um bocado. Blogs espalhados pela rede contam qualquer história dos mais diversos pontos de vista. E isso para não falar do registro que eles fazem da rotina de pessoas completamente diferentes umas das outras. No futuro, os historiadores vão ter bem menos trabalho para recontar o dia-a-dia dos homens, mulheres e crianças que viveram nos anos 2000.
A invenção da internet também foi responsável pelo fim de várias profissões. Nas redações dos jornais, por exemplo, um emprego comum era o de arquivista. Sua função era recortar as notícias publicadas em todos jornais do dia e separá-las por tema. Quando alguém importante morria (vamos supor, Getúlio Vargas), os repórteres do jornal vinham pedir ao arquivista todas as pastas com informações sobre aquela pessoa. Hoje, usando o Google, essa mesma pesquisa leva três segundos! E, no dia em que esse texto foi escrito, retornava 1.970.000 páginas com informações.
Outra característica de um tempo sem internet era a facilidade em copiar coisas de lugares distantes. Se alguém viajava para os Estados Unidos e ouvia uma melodia de que gostasse muito, por exemplo, podia simplesmente copiar a composição quando voltasse para o Brasil. Na maior parte das vezes, ninguém ficava sabendo o plágio. Não é que hoje as pessoas não copiem umas às outras – ou os trabalhos escolares umas das outras, por exemplo -, mas pelo menos está muito mais fácil descobrir o imitador. Basta digitar um trecho suspeito num site de busca para dar de cara com o texto de “referência” usado pelo espertinho.
Mas talvez a mudança mais importante da internet tenha sido transformar a comunicação entre duas pessoas que estão em lugares distantes. Antes da rede, que só começou a ser usada pelas pessoas comuns em 1995, a única forma de mandar notícias para um amigo era escrevendo uma carta. Isso podia levar meses. Imagine querer contar a conversa que você teve com seu paquera na hora do almoço para sua melhor amiga que está fazendo intercâmbio e saber que ela só vai ficar a par do acontecido daqui a duas semanas. Isso era bastante comum até 1997, quando a autora desse livro foi passar um ano na Inglaterra. E o pior de tudo: na malas que trouxe de volta, estavam lá as 567 cartas que recebi durante um ano. Hoje, o máximo que você teria que fazer era criar um endereço de e-mail com a maior capacidade de armazenamento. E de graça!
MAIS IMPORTANTE QUE A LUZ
Computadores precisam de energia para funcionar. Ou seja, internet só com eletricidade, certo? Bom, uma cidadezinha chamada Almécegas, perto de Fortaleza, provou que as coisas não são bem assim. Lá ainda não chegaram os cabos da luz elétrica, mas já há internet. Os moradores usaram energia solar para fazer dez computadores funcionarem e se conectarem à rede.
Texto extraído de:
SOALHEIRO, Barbara.
Como fazíamos sem.... São Paulo: Panda Books, 2006.