a posterioriA fortiori (diga /a forcióri/) é o início de uma expressão latina - a fortiori ratione - que significa "por causa de uma razão mais forte", ou seja, "com muito mais razão". Indica que uma conclusão deverá ser necessariamente aceita, já que ela é logicamente muito mais verdadeira que outra que já o foi anteriormente. Traduz-se mais ou menos como "se aceitamos a verdade daquilo, então mais razão temos de aceitar a verdade disto". É mais fácil mostrar do que tentar descrever o seu emprego correto:
· Se, como proclamam habitualmente as Constituições, todos são iguais perante a lei, podemos esperar que, A FORTIORI, todos também sejam iguais perante a Administração Pública.
· Hotéis, supermercados, centros comerciais e até hospitais vêm sendo condenados a indenizar os proprietários de veículos furtados em suas dependências; as empresas que exploram o estacionamento pago devem, A FORTIORI, responder por qualquer dano que ocorra nos carros sob sua guarda.
· Nos estados dos EUA em que a pornografia é considerada ilícita, a pornografia infantil é, A FORTIORI, proibida e punida severamente pela lei.
Fala-se, em Lógica, no argumento a fortiori, montado sobre uma relação semelhante à descrita acima: uma vez definida ou estabelecida uma conclusão geral, estamos estabelecendo ao mesmo tempo uma conclusão mais restrita, nela contida, cuja validade não é necessário demonstrar. As regras e peculiaridades deste tipo de construção, é claro, devem ser estudadas nos tratados de Lógica e de Argumentação.
Como curiosidade, lembro que Epifânio Dias, no clássico Sintaxe Histórica Portuguesa, exemplifica o uso de "quando" em argumentos a fortiori: "Quando o rei mente, o que não fará o vassalo?".
a prioriDiga [a posterióri]. Assim como seu oposto a priori, faz parte de uma expressão maior: a posteriori ratione, indicando que se trata de um raciocínio baseado no que veio depois. Num raciocínio a posteriori eu preciso apoiar-me na experiência, ou seja, em fatos obtidos pela observação ou pelo experimento. Muitas vezes, só depois de conhecer os resultados, as conseqüências, os efeitos, é que eu posso entender o que antes me escapava:
Muitos casais separados só entendem realmente o que aconteceu na sua relação quando a avaliam a posteriori.
O pessoal de poucas letras mas muita pretensão facilmente pode confundi-lo como uma espécie de sinônimo chique para "depois". Já vi advogados escreverem "primeiro vamos fazer isso; a posteriori, vamos fazer aquilo". Não esqueça: nada revela mais nossa ignorância que usar mal uma expressão latina. Na dúvida, não use.
ab ovoDiga (a prióri). Faz parte de uma expressão maior, a priori ratione quam experientia, o que significa "por um raciocínio anterior à experiência". Serve para indicar, por exemplo, um princípio que eu faço valer antes de mais nada e do qual não abro mão:
Não posso admitir, a priori, que alguém seja impedido de manifestar sua posição neste debate.
Também pode designar um raciocínio que se baseia em pressupostos e que, portanto, não leva em consideração o que a experiência posterior possa trazer:
É perigoso condenar a priori essa experiência econômica (entenda-se: sem ainda ter visto seus desdobramentos e suas conseqüências).
Julgar uma pessoa a priori é fazer uma opinião de alguém antes de realmente conhecê-lo:
Não me agrada fazer julgamentos a priori, mas esse conferencista me parece ser um sujeitinho insuportável.
Como essas atitudes pré-concebidas sempre foram condenadas nos meios bem-pensantes, há uma forte conotação negativa no adjetivo apriorístico quando o usamos com relação ao julgamento feito por outrem.
O raciocínio a priori opõe-se ao raciocínio a posteriori. Na Filosofia e na Lógica as duas expressões são usadas com significados bem definidos, especializados, que o leitor deverá entender no âmbito específico daquelas áreas.
ad hocNão foi por acaso que essa expressão latina ficou famosa, a ponto de ser empregada em todas as línguas ocidentais. Há duas versões para explicar sua fama, ambas perfeitamente aceitáveis. A primeira é o fato de Horácio, o famoso poeta latino, tê-la empregado na sua Arte Poética (na verdade, a terceira Epístola aos Pisões), em que elogia Homero por ter narrado a destruição de Tróia sem começar pelo ovo de Leda (ab ovo) - isto é, sem começar pelo nascimento lendário de Helena, que nasceu do relacionamento de Leda com Zeus, na figura de um cisne. Em vez disso, Homero situa a ação de sua Ilíada em pleno campo de batalha, já no décimo (e último) ano da guerra.
A outra teoria diz que ab ovo seria o início de uma expressão maior, "ab ovo usque ad mala" (literalmente, "do ovo até as maçãs"), que descrevia o início e o fim de um jantar romano, que geralmente começava com ovos e terminava com frutas - algo assim como "do antepasto até a sobremesa". Em ambos os casos, como podes ver, a expressão está associada à idéia de início; contudo, o seu emprego constante na literatura, principalmente para se referir a narrativas, torna a primeira hipótese mais provável, se levarmos em conta a influência que a Arte Poética de Horácio exerceu sobre a teoria literária do Ocidente.
ad nutumDiga [AD HÓC] (com o agá aspirado), ou simplesmente [AD ÓC]. Em Latim, significa literalmente "para isso", "para esse fim". Usa-se como adjetivo, quando se quer indicar que algo está relacionado a uma finalidade, caso ou situação específica. "Foi criada uma comissão ad hoc para tratar dos novos índices salariais" - o que significa que ela está autorizada a tratar exclusivamente desse assunto, e não de outros. É o mesmo sentido que tem na na frase "Este advogado foi representante ad hoc do governo brasileiro para a Rodada Uruguaia do Gatt". Este é um dos efeitos pretendidos com o seu emprego: deixar bem clara a limitação dos poderes ao caso específico.
A expressão pode ser usada também para criticar uma regra ou uma solução que tenha sido criada especificamente para resolver um problema que não se consegue enfrentar com um determinado princípio ou teoria: "O governo está cometendo o equívoco de tentar deter o défice comercial com uma medida ad hoc, que só pode ser temporária e não vai resolver o problema". Aqui seu sentido é nitidamente pejorativo; sugere que houve uma falha na argumentação, uma quebra deliberada na linha de raciocínio, a fim de acomodar aquilo que escapa ao modelo escolhido.
Deve ser escrita em negrito ou itálico, ou entre aspas.
caveat"ad nutum" (a pronúncia é /ad nútum/) significa literalmente "a um aceno da cabeça". Está ligada ao tempo em que os imperadores romanos exerciam um tal controle do poder que um simples aceno de sua cabeça podia significar uma decisão de vida ou de morte. Hoje a expressão é utilizada para caracterizar uma decisão que depende exclusivamente do arbítrio de uma das partes envolvidas. No mundo jurídico, onde é muito freqüente, caracteriza "o direito que possui uma das partes que integram a relação jurídica de desfazê-la, independentemente da vontade da outra". O síndico do teu prédio pode ser destituído ad nutum pela Assembléia dos condôminos; os testamentos são revogáveis ad nutum; a não ser que haja disposição expressa em sentido contrário, a procuração que passei para meu corretor de imóveis pode ser revogada ad nutum; e assim por diante.
Na esfera pública, sabes que o detentor de um cargo de confiança pode ser afastado pela simples vontade de quem o convidou, sem a necessidade de processo administrativo ou legal. Dou-te um bom exemplo: no primeiro mandato de FHC, um ministro (nem lembro mais qual deles), que estava sendo fritado, declarou aos jornais que "punha seu cargo à disposição do Presidente". Nos jornais do dia seguinte, Fernando Henrique simplesmente retorquiu que os cargos de ministro estão SEMPRE à sua disposição - no que estava absolutamente certo, já que, pelo Art. 84 da Constituição Brasileira, os ministros são demissíveis ad nutum.
data veniaDiga [CÁveat]. Um caveat é uma advertência, um aviso, um conselho para que haja cautela. Embora venha do imperativo de cavere (em Latim, tomar cuidado, acautelar-se), verbo que ainda encontramos dentro do nosso precaver, entrou em nosso léxico como substantivo ("um caveat", "ignorou o caveat", etc.). Nos países da Common Law o termo designa também um ato processual específico, mas seu uso universal no mundo acadêmico é mesmo para recomendar cuidado (como aparece, aliás, em diversas seções deste sítio). Um famoso ladrilho encontrado nas ruínas de Pompéia nos mostra a figurinha de um cachorro acorrentado, encimada pela frase Cave Canem" - nossa velha "cuidado com o cão" (se a memória não me trai, essa ilustração aparece no "História do Mundo para Crianças", do Monteiro Lobato). Mais famosa, no entanto, na cultura ocidental, é a frase Cave ne cadas ("cuidado para não caíres"), sabiamente usada nos triunfos romanos: enquanto o general vitorioso, à frente de suas legiões, vestido de púrpura, num carro puxado por quatro cavalos brancos, avançava lentamente pelas ruas de Roma, sob o aplauso ininterrupto da população, tendo à frente do cortejo, em correntes de ouro e de prata, os reis e generais capturados, e os cativos que carregavam os tesouros que tinha conquistado para o Império, atrás dele, no mesmo carro, vinha um escravo repetindo - por que era fácil esquecer! - "Lembra-te de que és homem; cuidado para não caíres". Aqui mesmo, nas Expressões Latinas, você pode ver em sic que o Vaticano adotou, na ordenação dos papas, uma frase diferente, mas com a mesma intenção: Sic transit gloria mundi.
idem, ibidemData venia (grifado e sem acento), traduzida como "com a devida vênia, com o devido respeito", é uma locução empregada para introduzir uma objeção que vamos fazer ao que nosso interlocutor disse ou escreveu. Seja em Latim, seja em seus equivalentes traduzidos, é uma daquelas fórmulas de cortesia quase obrigatórias quando discordamos de alguém que, pela posição, pelo cargo ou pelo prestígio, está situado acima de nós (um advogado que fala com um juiz, um jovem pesquisador que discorda de um pesquisador de renome, um aluno que discorda de seu professor).
A Página do Latim, um sítio que vale a pena examinar, observa que "data" é uma forma do verbo "dare" ("dar", em Latim); a tradução literal seria, portanto, "dada a licença". Quando se quer intensificar a expressão, podemos acrescentar o adjetivo "maxima": "data maxima venia", e não, como fazem alguns, inventar um "datissima venia", "que é um erro gramatical e serve apenas para demonstrar falta de conhecimento da Gramática Latina".
É claro que a expressão, bem como as demais fórmulas de cortesia, pode ser usada em sentido irônico, quando nos dirigimos a um interlocutor visivelmente desqualificado, que não mereceria essas cautelas da diplomacia retórica.
ipsis litterisO uso de ibidem para reforçar o idem é latim de estudante, na mesa de bar: "Quero um chope e dois pastéis", dizia o primeiro; "Eu, idem!", dizia o segundo; "Eu, ibidem", dizia o terceiro - e, que eu me lembre, a gente ia grudando tantos idens e ibidens quantos fosse necessário. Alguns, mais originais, diziam "idem, idem", "ibidem, ibidem" - mas éramos jovens, e o riso era franco.
Diante de uma banca de mestrado, contudo, vale o idem e o ibidem acadêmicos, na sua precisão latina. Ambos os vocábulos são usados nas referências bibliográficas de citações feitas no texto. Por exemplo: numa nota de rodapé, eu faço a referência completa do Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Como a nota seguinte fala de uma obra do mesmo autor, eu posso usar o idem, que significa "o mesmo". Se a nota depois desta falar da mesma obra, posso então usar simplesmente ibidem ("no mesmo lugar). É mais fácil mostrar do que descrever:
1 - FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 36. ed. Rio de Janeiro, Record, 1999. p. 146
2 - idem. Sobrados e Mucambos. 5.ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1977. p. 231
3 - ibidem. p. 245O idem da nota 2 significa que Sobrados e Mucambos é também do Gilberto Freyre. O ibidem da nota 3 indica que estou citando outra página do mesmo livro definido na nota anterior. São expressões usadas para economia nas indicações bibliográficas.
Ipso factoIpsis litteris [diga /ípsis líteris/], "com as mesmas letras", é uma das muitas expressões usadas na linguagem culta para indicar que alguma coisa está sendo transcrita literalmente, com toda a exatidão: "O texto a seguir é a reprodução ipsis litteris da carta enviada por Stalin em 1946". Uma expressão similar é ad litteram ("ao pé da letra"), embora esta possa também significar outra nuança de "literalmente", como se pode ver na frase "O erro dos pesquisadores foi tomar esses provérbios populares ad litteram".
Subindo da letra para a palavra, pode-se empregar o tradicional ipsis verbis (diga /ípsis vérbis/, "com as mesmas palavras"), que também aparece na versão enfática (e impressionante) de ipsissima verba, traduzida mais ou menos como "as mesmíssimas palavras".
Outra derivada do Latim verbum ("palavra"), usada para a mesma finalidade, é verbatim ("palavra por palavra"): "A testemunha conseguiu repetir o diálogo verbatim". Para ressaltar ainda mais a exatidão do texto, acadêmicos rigorosos criaram o "verbatim et literatim", que assegura que a transcrição foi feita "palavra por palavra, letra por letra". O que mais um leitor poderia querer? Pois não é que alguns exagerados chegaram a um "verbatim et literatim et punctatim", que deveria, na cabeça oca deles, indicar que até os sinais de pontuação tinham sido respeitados? O problema é que foram traídos pela rima, uma vez que punctatim, que significa "breve, conciso", não tem nada a ver com a pontuação.
Essa indicação de rigor na transcrição também aparece no mundo real, não-acadêmico, por meio dos populares "tintim por tintim", "sem tirar nem pôr" ou "com todos os efes-e-erres".
lapsus calamiDiga "ípso fácto". Significa "por esse próprio fato", "por isso mesmo"; "exatamente por isso". É usado quando vamos anunciar uma conseqüência obrigatória , um resultado inevitável de um fato mencionado:
Assinar esse tratado é reconhecer ipso facto a legitimidade do novo governo.
O consorciado não estava em dia com as parcelas devidas; ipso facto, não podia concorrer ao sorteio.
"Parece incrível que as senhoras não saibam que esse homem, desde que pôs as mãos num sacerdote, está ipso facto excomungado, e excomungados todos os objetos que lhe pertencem!" - Eça de Queirós, "O Crime do Padre Amaro".
Note que, em alguns contextos, a expressão poderia ser substituída por automaticamente.
lato sensu, stricto sensuEsta expressão, pronunciada /LÁpsus CÁlami/, é usada no mundo inteiro para designar um erro involuntário de grafia, subentendendo-se, portanto (essa é a intenção!) que ele não se deveu à falta de formação ortográfica do autor. Se escrevo "pressiozidade" em vez de "preciosidade", não adianta desculpa em Latim, porque minha ignorância está mais do que evidente; contudo, se escrevo "precionidade", o "n" é um indiscutível lapsus calami. Muita coisa, contudo, está por trás dessa expressão, como veremos.
O cálamo - Dentre os muitos povos da Antigüidade que usavam tinta líquida para escrever, alguns empregavam o pincel (japoneses e chineses, por exemplo), enquanto outros utilizavam uma caneta primitiva, feita de junco (era o caso dos romanos e dos árabes). Em Latim, chamava-se de calamus (do Grego kálamus) esse junco, que era cortado em hastes de mais ou menos 20cm, com a ponta cuidadosamente aparada e fendida, à semelhança das penas de nossas canetas modernas. Aliás, o nome caneta, derivado de cana, lembra até hoje a origem desse poderoso instrumento.
O recipiente em que se guardava a tinta e onde se mergulhava o cálamo era chamado de calamarius, nome que foi mais tarde aplicado aos deliciosos calamares, moluscos que são verdadeiros tinteiros marinhos; nos restaurantes espanhóis é sempre boa pedida um prato de "calamares en su tinta", deliciosa iguaria que o turista estrangeiro raramente enfrenta, por estranhar comida preta, coisa que não nos assombra, a nós, os brasileiros criados a feijão.
O lapso - Além do sentido mais atual, de "intervalo de tempo", lapsus é "deslize, escorregadela". Lapsus calami, portanto, significa literalmente "escorregadela da pena". Com a mesma intenção, difundiram-se as expressões irmãs lapsus linguae (/LÁPsus LÍngüé/) e lapsus memoriae (/LÁPsus memoriÉ/), que apontam para deslizes da língua (ao falar) ou da memória.
Com o uso da máquina de escrever e do computador, os sabidinhos de sempre começaram a procurar uma expressão que substituísse o "calami" - já que não se tratava mais de uma caneta ... - e fosse mais adequada a um erro de digitação. Mas como é possível que esse pessoal não perceba a extraordinária capacidade generalizadora do idioma? O Português precisaria ter 5.000.000 de vocábulos, se quisesse nomear cada item, cada ação, cada qualidade com um vocábulo específico! Como já escrevi em herbicidar, embarcar veio de barco, mas hoje se embarca em trem, ônibus, lotação, táxi, diligência, nave espacial, helicóptero, em canoa furada e até numa fria, porque o verbo embarcar, como acontece (felizmente) com as palavras, soltou suas amarras do significado primitivo e alargou o campo de sua abrangência. Se cometo um erro involuntário usando caneta, lápis, giz, máquina de escrever, processador de texto ou aviãozinho que escreve com fumaça no céu, é claro que tudo cabe no lapsus calami.
Freud, e depois dele, toda a Psicanálise, lançou uma nova luz sobre os lapsos: muitas vezes eles denunciam pensamentos ou desejos ocultos, que vêm à tona numa dessas trocas desastradas. Isso acontece muito nas relações entre casais, onde chamar o parceiro pelo nome trocado geralmente provoca muita mágoa e ciúme - cá entre nós, perfeitamente justificados.
modus in rebusLato e stricto sensu fazem parte daquele conjunto de expressões latinas que o mundo acadêmico costuma usar - aqui e em qualquer outra parte do planeta. Estão, portanto, na mesma situação de curriculum vitae, et alii, idem, ibidem, sic, apud, entre tantas. Lato sensu (pronuncia-se /látu sênsu/) é, literalmente "em sentido largo, amplo"; opõe-se a stricto sensu (pronuncia-se /estríctu sênsu/), que significa "em sentido restrito". Por causa da pronúncia, essas expressões aparecem muitas vezes com os adjetivos (lato e stricto) erroneamente grafados com "U" final (*latu e *strictu). Quando as empregares no texto, elas devem vir em itálico ou negrito.
Sua utilidade consiste em ampliar ou estreitar o âmbito de abrangência de um determinado conceito; assim, há sociólogos que distinguem a "família lato sensu", que engloba todos os ascendentes e descendentes de um cidadão, da família "stricto sensu", que se refere apenas à célula formada pelos dois cônjuges e seus filhos. Há estudiosos que falam da "jurisprudência lato sensu" (o conjunto de todas as decisões jurisdicionais) e da "jurisprudência stricto sensu" (as decisões aplicáveis a um determinado tipo de caso). Na pós-graduação, distinguem-se os cursos stricto sensu (mestrado e doutorado) dos cursos lato sensu (aperfeiçoamento, especialização ou qualquer outro curso complementar realizado após a graduação).
É interessante notar que em muitos países é usual empregar essas expressões com a ordem de seus elementos invertida - sensu lato e sensu stricto, o que é particularmente curioso no caso da Inglaterra e dos Estados Unidos, dada a conhecida posição do adjetivo anteposto ao substantivo, que é obrigatória no Inglês.
mutatis mutandisEsta expressão faz parte de uma frase retirada de uma das sátiras do famoso poeta romano Horácio, em que ele adverte contra os excessos e recomenda a moderação: "Est modus in rebus, sunt certi denique fines" - literalmente, "há uma justa medida ("modus") em todas as coisas ("rebus"); existem, afinal, certos limites" (Livro I, Sátira 1). É usada principalmente em tom de advertência, quando queremos sugerir que alguma coisa está passando do tolerável. Um conhecido senador, em discurso recente, lamentava os incidentes vergonhosos que vêm abalando a dignidade do Senado e arrematava com este fecho latino: "Encerro minha manifestação com um aviso aos senadores, para que continuem respeitados por todos os brasileiros: EST MODUS IN REBUS! O País não pode mais tolerar tanta ignomínia!". Sábias palavras, que, se não surtiram o efeito desejado, ao menos devem ter levado vários senadores a se reconciliarem com o amansa-burro. Abraço. Prof. Moreno.
P.S.: pronuncia-se /módus in rébus/.
non sequiturDiga "muTAtis muTANdis". A tradução literal é "mudando o que deve ser mudado", isto é, "com as devidas modificações", (pop.) "com os devidos descontos". É uma expressão extremamente útil nos textos argumentativos, quando queremos ressaltar as semelhanças entre dois elementos sem deixar que as diferenças tornem a analogia obscura ou sejam usadas por nosso interlocutor para invalidar nosso raciocínio. Ex.: "Segundo ele, o desenvolvimento da linguagem de uma criança inglesa seguiria, mutatis mutandis, as mesmas etapas por que passou o Inglês na sua evolução histórica". Na escrita, vem sempre separado por vírgula (como qualquer intercalação) e em destaque (negrito ou itálico).
passimDiga /non sécuitur/. Esta expressão latina significa, literalmente, "não se segue"; nela podemos facilmente perceber a presença do verbo sequo, avô de tantas palavras no Português: seqüência, seqüela, séqüito (ou séquito), sequaz, entre outras. Na Lógica, de onde ela proveio, designa um grupo de argumentos defeituosos (é uma falácia, portanto) em que as inferências ou conclusões não resultam logicamente das premissas apresentadas. É, portanto, uma expressão de crítica, de reprovação ao raciocínio de alguém, e não se espante se a pessoa acusada de cometer non sequiturs ficar infeliz (ou furibunda!) com o comentário.
Vou dar dois exemplos lingüísticos. No primeiro, cometo a deselegância de citar a mim mesmo: quando tratei da distinção entre bimensal e bimestral, chamei de non sequitur o raciocínio de Napoleão Mendes de Almeida, quando ele recorre ao Latim e ao Inglês para nos informar que bimensal e bimestral vêm do mesmo radical e conclui, em vista disso, que as duas palavras dizem a mesma coisa. Como dizemos em vernáculo, não tem nada a ver! Outro exemplo de non sequitur que ficou famoso aparece num dos primeiros textos de descrição de nossa terra: Pero de Magalhães Gândavo (há quem prefira Gandavo, rimando com centavo), em seu Tratado da Terra do Brasil, escrito ainda no século do Descobrimento, diz que a língua falada por nosso índio não tinha "F", "L" ou "R" - "cousa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei". Afinal, o que tem a ver o cós com a calça?
post scriptumDiga [PÁssim]; advérbio latino que significa, literalmente, "aqui e ali"; "por toda parte"; "neste lugar e noutros". Colocado logo após o título de uma obra ou de um autor que citamos, indica que ali podem ser encontradas diversas referências a um determinado assunto, numerosas demais para serem indicadas pelo número das páginas em que aparecem. Quando escrevo "A Semana de Arte Moderna vem tratada no Capítulo 2 (p. 54-67 e passim)", estou dizendo a meu leitor que ele vai encontrar, espalhadas por todo esse capítulo, referências à Semana - e, mais especificamente, nas páginas de 54 a 67.
Os livros de editoração aconselham a usar passim apenas no corpo do texto, evitando seu emprego nos índices, pois seu caráter impreciso contrasta com a exatidão que se esperaria de um índice. Esta é uma daquelas fórmulas usadas no mundo inteiro para fornecer ao leitor informações sobre a organização textual, ao lado de sic, supra, infra, apud, etc. Pode ser usado juntamente com sic (sic passim), para indicar que tal palavra ou tal dado se encontra escrito assim em toda a extensão da obra ou do artigo (ver sic). Escreve-se grifado ou em negrito.
SicDiga [PÓst SCRÍptum]. Em Latim, significa literalmente "escrito depois"; originariamente, indicava algo que julgamos necessário acrescentar a uma carta após o seu encerramento (fecho, assinatura, etc.). Com o tempo, foi-se percebendo que esta fórmula, além de servir para corrigir nossos lapsos de memória ou simplesmente informar que haviam ocorrido alterações depois que tínhamos dado a carta por concluída, poderia servir como uma sutil estratégia retórica: depois de percorrer todo o corpo do texto, o leitor se depara com uma idéia posta em destaque, plantada ali por nós com aquela mesma aparente despreocupação com que lançamos, na fala, aquele temível "Ah! Antes que eu me esqueça ... ", que sempre anuncia o que de mais importante temos a dizer. É justamente esse efeito "amplificador" do post scriptum o que explica a sua utilização nas cartas e mensagens escritas no computador, uma vez que, com os fantásticos recursos de correção e arrependimento trazidos pelos processadores de texto, poderíamos simplesmente incluir no texto o que tínhamos esquecido. O Aurélio XXI registra a forma pós-escrito, modernizada; nada contra ela, mas acho que conhecer a expressão em Latim, entre outras vantagens, deixa visível a sua relação com a abreviatura, que é:
P. S.
statu quoÉ um advérbio latino, que significa literalmente assim. Está presente em muitas frases célebres da tradição ocidental, entre elas o famoso Sic transit gloria mundi ("assim passa a glória deste mundo"), palavras que são ditas (três vezes) na cerimônia de posse um novo papa, como para lembrá-lo de quão breve e vã é a glória deste mundo. Segundo alguns especialistas nas Línguas Românicas, deste advérbio teriam saído o sim do Português e o si do Espanhol.
É usado internacionalmente para indicar ao leitor que aquilo que ele acabou de ler, por errado ou estranho que pareça, é assim mesmo. Quando estou citando o texto de alguém, o sic serve para indicar ao meu leitor que eu sei que o texto original contém um erro ou que estou estranhando aquilo que ali está. Quando eu intercalo um sic no meu próprio texto, estou dizendo que é assim mesmo que eu quero que conste, por estranho ou errado que pareça. É como se eu dissesse ao leitor: "É assim mesmo como você está vendo; não foi erro de cópia ou de impressão".
Quando é um óbvio equívoco de digitação, que não se pode imaginar como erro do autor, não devemos utilizar o sic. Se encontro "um cidavão brasileiro" (por cidadão)", "no Hosdital de Clínicas" (por hospital), "Cabral avistou nossa costa no ano de 7500", trato de corrigir ao fazer a transcrição. Agora, se estou citando um autor em cujo texto aparece obsessão com SC (* obscessão, que Deus nos livre!), tenho diante de mim dois caminhos: (1) ignoro o erro do texto original e já o transcrevo da forma correta (no mundo acadêmico, isso é o que se deve fazer com os amigos), ou (2) reproduzo-o exatamente, acrescentando-lhe o sic. Neste caso, o sic funciona como um poderoso instrumento retórico, já que permite que eu estabeleça com o meu leitor uma cumplicidade superior contra o autor que estou sicando. Na verdade, estou fazendo um impiedoso comentário do tipo "olha só como esta besta escreve errado!" . Eu não quero fazer a correção: eu quero mesmo é desqualificar o argumento deste autor, mostrando que ele deve ser ignorante, já que escreve tão mal assim (é evidente que isso é falacioso, mas sempre funcionou muito bem em argumentação).
Há casos, porém, em que eu não posso fazer espontaneamente a correção, porque a natureza do item que está evidentemente errado ou que me causou estranheza não me permite arriscar uma "correção" subjetiva. Por exemplo: "Ele só tinha 34 [sic] dedos na mão direita" (o erro é óbvio, mas não sua correção: eram 3 ou 4?); "Naquele ano Jobim compôs 97 [sic] músicas de sucesso (parece um exagero; pode estar errado ou não).
Hoje, o sic já está sendo usado como uma forma de transmitir minha opinião sobre a posição de um autor ou sobre um determinado item. Por exemplo, se alguém diz "Esse foi o erro de Freud", posso citá-lo como "Esse foi o erro [sic] de Freud" - e neste caso estarei criticando a posição do autor citado, que está implícita na escolha que fez do vocábulo erro, bem como estarei marcando a minha própria posição (os mais exaltados costumam, aqui, combinar o sic com o ponto de exclamação: "Esse foi o erro [sic!] de Freud"; outros apenas usam a exclamação entre parênteses ("Esse foi o erro (!) de Freud"); outros, a interrogação ("Esse foi o erro (?) de Freud") (Ver Usos Especiais da Pontuação).
Exatamente por esse valor reprovador inerente ao sic, muitas vezes o renome, o respeito, o saber de quem está sendo citado nos obriga a usar, para avisar o leitor de que estamos conscientes da estranheza do que está escrito, de fórmulas mais prudentes e diplomáticas ( [estava assim no original], [aqui parece ter havido erro de impressão], etc.), cujo emprego mostra que estamos tentando apenas constatar um fato, sem intenção crítica ou agressiva.
O sic também é muito usado por profissionais de áreas que lidam diretamente com o público (magistrados, escrivãos, médicos, enfermeiros, etc.) e que são obrigados a registrar declarações e depoimentos. Serve para o mesmo propósito: mostrar que o registro foi fiel, mas que o autor está atento para a estranheza ou a incongruência do que está sendo dito pelo réu, pela testemunha ou pelo paciente. O curioso é que muitos deles me disseram que sic é a sigla para "Segundo Informações Colhidas"! É uma interpretação deveras engenhosa para o Português; apenas esquecem que os ingleses, os franceses, os alemães, os poloneses, até os próprios húngaros (!) (o que há com os húngaros? Leia, na seção de Artigos, Retrato Íntimo de um Idioma), usam o mesmo sic, que é um vocábulo latino, não uma abreviação.
Deve ser escrito em negrito ou itálico, entre colchetes (que é a pontuação recomendada para qualquer intromissão nossa no texto - [o grifo é meu] , [aqui foram obliteradas três linhas completas], etc. Já produziu verbo dele derivado: sicar. Ouve-se muito no mundo acadêmico: "Eu o siquei três vezes", "Ninguém tem coragem de sicar um autor deste porte". Quando um mesmo caso se repete em várias passagens de um texto, usa-se [sic passim] - "está assim por toda parte".
sui generisStatu quo é uma redução da expressão latina [in] statu quo [ante], que significa, literalmente, "no mesmo estado em que se encontrava antes". A diplomacia teria sido o principal responsável pela difusão da expressão, empregada principalmente para referir-se às condições em que tudo se encontrava antes de determinado fato. Por exemplo: duas nações que se engajam numa guerra de fronteiras podem concordar em cessar fogo desde que as duas partes voltem ao statu quo ante - entenda-se, às posições territoriais que ocupavam antes do início do conflito (notem que aqui, devido à idéia temporal, o advérbio latino ante pode ser usado, se quisermos).
Pouco a pouco, esta expressão, além de "estado anterior", passou também - e principalmente - a significar o estado atual, a situação vigente, ou, no jargão dos anos 60, o sistema. É o que vemos nas frases abaixo:
"Enquanto Marat e Sade são personagens pró-revolução (Marat na revolução externa, política, e Sade, na interna, erótica), Napoleão é o reacionário, que representa o statu quo."
"As tendências da esquerda brasileira e seus aliados ainda agem, infelizmente, como se a agremiação devesse limitar-se a contestar o statu quo, tal como ocorrera até o final dos anos 70."
Estranhamente, diz o dicionário Aurélio XXI que a forma status quo seria preferível a statu quo. Essa é também a lição de alguns dicionários ingleses, mas não tem qualquer razão de ser. Na expressão latina completa - in statu quo ante -, a palavra status (em Latim, "o estado") não aparece no nominativo, mas no ablativo statu, e como tal deve figurar na forma reduzida. Para quem perdeu o seu Latim, acrescento: teríamos status se a palavra fosse aqui o sujeito; contudo, temos statu porque é um adjunto adverbial (que corresponde, grosso modo, ao ablativo latino).
Status, usado isoladamente, é vinho de outra pipa: é um latinismo usado até na linguagem coloquial, com o significado de (1) situação, estado ou condição ou (2) grau elevado de distinção e prestígio social:
São Paulo estuda a possibilidade de reivindicar o status de cidade internacional.
Há dois anos apenas, portar um telefone celular era um indiscutível símbolo de status.
Tanto statu quo, quanto status, devem ser colocados entre aspas ou escritos em letra de destaque (itálico ou negrito). Agora, faço questão de reproduzir a cáustica advertência dos irmãos Fowler para quem gosta de empregar expressões latinas: "Ninguém deve usá-las se não tiver certeza de que não estará, assim, apenas proclamando sua ignorância".
Diga [SÚi GÊneris]. Literalmente, significa "de seu próprio gênero", ou seja, "único em seu gênero". Usa-se como adjetivo para indicar que algo é único, peculiar: uma atividade sui generis, uma proposta sui generis, um comportamento sui generis. A expressão começou a ser usada para coisas especiais, singulares, a partir do século XVIII, principalmente em textos científicos, para qualificar substâncias, enfermidades e até mesmo rochas que não se enquadravam nos grupos conhecidos ou que pareciam ser os únicos representantes de sua classe ou gênero. Pouco a pouco, sui generis ultrapassou os limites da ciência classificatória e passou a ser usado para qualquer coisa invulgar, fora do comum. Em certos contextos, esta expressão é usada eufemisticamente, disfarçando, por meio da pompa e circunstância do Latim, uma crítica a algo que nos pareceu francamente esquisito; por isso mesmo, temos de tomar cuidado ao usá-la, para não sermos acusados de estar fazendo ironia. Um comentário do tipo "Aquele professor tem uma maneira sui generis de expor suas idéias" pode ser lido tanto em direção ao Bem, quanto ao Mal; é bom esclarecer qual é a nossa intenção. Como todas as expressões latinas, deve vir em destaque na escrita (itálico ou negrito).