Tivera um pai cruel e dominador, pela morte do qual muitas vezes até rezava na infância. Agora, em plena noite de núpcias, é acometido por mais uma daquelas crises que já bem conhece, em que se prostra ao chão e começa a se debater: a epilepsia. Trata-se de Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (1821 – 1881), um dos imortais da literatura de todos os tempos e que legou à posteridade através de seus personagens, retrato fiel de seu sofrimento. Em sua obra-prima “Os Irmãos Karamázovi” o rico senhor Fiódor Pavlovitch, em noite de embriagues, violenta Lisavieta, uma débil mental imunda que vagueia pelas ruas à cata da caridade alheia. Deste ultraje carnal nasce Paviel. Criado pelo pai como um servidor de casa, recebe a alcunha de Smierdákov (já a tinha a mãe, e significa literalmente “fedorento”) . Profundamente infeliz e vítima freqüente de ataques epilépticos, acaba por assassinar o pai tirano numa típica crise chamada medicamente “do lobo temporal”, na vigência da qual o doente é capaz de praticar algumas ações inconscientemente. Guimarães Rosa por sua vez, como já vimos, coloca na boca de Miguilim, em Campo Geral, todo o seu fascínio de criança míope ao usar óculos pela primeira vez.
De Emily Brönte (1818 – 1848), que com apenas uma obra de vulto ( “O Morro dos Ventos Uivantes”) tornou-se das principais figuras da literatura inglesa, vemos inúmeras passagens como: “Agarrei Linton pela mãos e tentei puxá-lo pra trás. Mas ele se pos a urrar tão horrivelmente que não ousei continuar. Por fim seus gritos forma abafados por terrível acesso de tosse. O sangue lhe saía pela boca e ela caiu ao chão...” Trata-se de uma crise de hemoptise do frágil e pálido adolescente Linton, que é a imortalização dos irmãos de Emily (sete ao todo) que foram sendo impiedosamente consumidos, um a um, pelo tuberculose. Por fim sobraram as três irmãs que se tornaram célebres (Emily, Charlote, e Anne) que também sucumbiram aos mesmo mal: Emily 30 anos e Charlote aos 39, uma ano após seu casamento.
Que diríamos de Van Gogh (1853 – 1890) que peregrinou de hospital em hospital para tratamento psiquiátrico? Teve em sua vida episódios como o corte da própria orelha em arrependimento de uma desavença com o amigo Gauguin e por fim o suicídio como um tiro no peito: não teria exibido em suas telas toda a lucidez de sua loucura?
Henri de Toulouse – Lautrec (1864 – 1901) foi vítima de fratura de ambos os fêmures na infância e recebeu dos médicos o veredicto inapelável: as pernas não crescem mais. Entortaram-se para sempre, sustentando um tronco atlético, dando motivo de sobra para os parisienses olharem-no com piedade, espanto e hilaridade. Tal deformidade deixou marcas profundas em sua obra, misto de escárnio de um mutilado e um ato pleno de profunda compreensão. Morreu consumido pelo álcool com a idade de 37 anos.
Ludwig Van Beethoven (1770 – 1827), que tornou-se completamente surdo no auge de sua criatividade, desenvolveu temperamento tímido, desconfiado, lamentoso, mal-humorado, até com tendências suicidas. Toda a amargura e revolta que a surdez lhe trouxe estão transparentes na carta escrita a seu irmão Carl:
“Vós, homens, que me credes cruel, intratável ou misantropo, e que tal mesmo me representais: como sois injustos comigo! Ignorais as secretas razões que forçam a obrar deste jeito. Meu coração e meu ânimo se inclinam naturalmente à benevolência e, quando menino, até experimentava o vivo desejo de realizar atos de caridade; mas, considerai que, de seis anos para cá. Vivo sob medonha doença, agravada pela ignorância dos meus médicos; que embalado pela esperança de curar-me, só me resta a perspectiva de duplo mal, cujo remédio será demorado ou quiçá impossível. Nascido com temperamento ardente e sensível aos atrativos doa sociedade, vejo-me obrigado a me retirar antes da hora, e quando quis sobrepor-me ao mal e esquecê-lo, não foi possível, a minha mágoa cresceu com minha dificuldade de ouvir. Era-me impossível fizer aos homens; falei mais forte; gritai, porque sou surdo!... Como confessar esse defeito de um sentido que deveria ser em mim mais excelente do que nos outros, de um sentido que já foi outrora tão perfeito até o ponto de que contados homens da minha arte o possuíam!... Não posso, não!..."
Suas últimas sonatas mostram claramente todo o drama íntimo de sua vida: a solidão e principalmente a surdez.
Assim como muitos gênios das artes (literatura, pintura, música), exprimiram suas patologias em suas obras, a obra de vários artistas presta-se à historiografia médica. Nos “Lusíadas”, Camões (1524 – 1580) dá perfeita descrição do escorbuto (freqüente nos marinheiros de viagens prolongadas, privados da ingestão de frutas frescas). No canto V podemos aprecias:
LXXXI
E foi que doença crua e feia
A mais que eu nunca vi, desampararam
Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Os ossos para sempre sepultaram.
Quem haverá de ver o creia?
Que tão disformemente alli lhe incharam
As gingivas na boca, que crescia
A carne, e juntamente apodrecia.
LXXXII
Apodrecia c’hum fétido e bruto
Cheiro, que o ar visinho inficionava:
Não tínhamos alli médico astuto,
Cirurgião subtil menos se achava.
Mas qualquer neste officio pouco instructo
Pela carne já podre assi cortava,
Como se fôra morta; e bem convinha
Pois que morto ficava quem a tinha.
(Grafia segundo edição de 1873, bibl. part.)
Na sua excelente “Farsa dos Físicos” Gil Vicente (1470 – 1536) por sua vez, fornece dados de medicina popular quinhentista:
Hui, compadre, esforçade:
Nunca outrem foi doente?
Tomae ora hum suadouro
De bosta de porco velho,
E com unto de coelho
Esfregai o pousadeiro,
E crede-me de conselho
E se de quebrando for,
Tomade o insenso bello,
E o çumo de marmelo
E as favas de Guiné
E untai o cotovelo.
Si: e se for priorisa
Tomade de guiabella
Pisada co’o fel d’ovelha
Ilustra uma das composições que se usavam nos clisteres:
MESTRE FELIPE
Ora será bom que tomeis
Cristel d’agua de cevada
Com farelos mesturada.
......................................
E demonstra o relacionamento dos físicos (médicos) com a astrologia:
TORRES (o físico)
Bisexto he o anno agora,
Em Piscis estava Jupiter,
Saturno ha de desfazer
Quanto natura melhora:
Bom ha aqui que guarnecer.
Também em Piscis a lûa,
Isso foi em quatafeira:
Mercurio á hora primeira:
Não vejo causa nenhûma
Para febre verdadeira
Exemplo mais brilhante é o da história da sífilis: há forte teoria “americanista”deste mal, ou seja, a sífilis teria sido levada para a Europa pelos descobridores da América originando o trocadilho Colombo civilizou a América e sifilizou a Europa”. As correntes médicas que, aos contrário, acreditam já existir sífilis na Europa antes dos descobrimentos, entre outros dados, baseiam-se na fidelidade de expressão pictórica de artistas plásticos que produziram lesões sifilíticas insofismáveis antes dessa era. O retábulo “Milagres de São Cosme e São Damião”(em Terrasa), pintado por Jaime Huget em 1461, mostra um personagem com lesão crural tão tipicamente sifilítica, que foi obrigatoriamente copiada do natural, 30 anos antes do descobrimento da América.
Vemos então a Arte ajudando a elucidar a história da Medicina. A Medicina, por sua vez, auxilia a elucidar a história da Arte, através da própria arte: é interessantíssimo o estudo realizado pro C. G. Sederholm, que diagnosticou retrospectivamente a doença de Basedow-Graves (hiper – tireoidismo mais exoftalmia) como causa da morte de Wolfgang Amadeus Mozart (1755 – 1791), sobre a qual se formularam diversas teorias como envenenamento, febre tifóide, meningite, tuberculosa e tifo exantemático. Sederhorlm analisa dois retratos de Mozart, sendo o primeiro de auditoria de G. A. Sasso, pertencente à Fundação Internacional Mozarteum (Salzburg) e outro, de Joseph Lange (cunhado do compositor). Em ambos o gênio musical exibe mais que evidente exoftalmia, aspecto este ausente em outros retratos pintados anteriormente. Esse fato, o tremor de suas mãos (revelado por suas últimas cartas) e sua inquietude, instabilidade, nervosismo e intranqüilidade, atestados por depoimentos e seus contemporâneos, levaram Sederholm a firmar tal diagnóstico.
Comovente demonstração da superior sensibilidade dos artistas é a descrição por eles de patologias, bem antes dos próprios médicos. Encontra-se no Museu do Prado uma obra denominada “Retrato de Pejerón” (um bufão do Duque de Alba). Qualquer médico atual faz o diagnóstico de Paralisia de Duchenne-Erb (paralisia de plexo branquial) apenas aos olhá-lo de relance. Seu autor, Antônio Moro (1512 – 1578), pintor oficial da côrte de Felipe II, captou detalhes dessa patologia 300 anos antes que Duchenne e Erb inscrevessem-na literatura médica.
Semelhante exemplo encontramos no trabalho do grande neurologista Charcot, que, estudando a obra do pintor Albrecht Dürer (1471 – 1528), encontrou lesões leprosas de tamanho realismo em seus personagens que se pôde reconhecer, por exemplo, a atrofia dos músculos interósseos e dos extensores do ante-braço numa figura do quadro “os apóstolos São Pedro e São João curando enfermos” que data de 1513, exatamente três séculos antes dessas lesões aparecerem descritas pela primeira vez nos livros de Medicina.
Ficamos a imaginar o que poderia resultar do trabalho conjunto de um gênio da Arte com um gênio da Medicina... E isso realmente aconteceu. O produto dessa união foi a considerada “maior publicação médica de todos os tempos”: DE HUMAI CORPORIS FABRICA, LIBRI SEPTEM. Este infólio de 700 páginas e 300 ilustrações nos sete livros teve como autor Andrea Vesalio (1514 – 1564) aos 28 anos. Representante médico do pensamento renascentista, jogou por terra os antigos conceitos de Galeno aceitos como dogmas por um milênio. As duas grandes virtudes da obra foram primeiramente ser totalmente inspirada na dissecção de cadáveres humanos, rompendo com a tradição galênica de estudar a anatomia nos animais e extrapolá-la ao homem. Em segundo lugar, a beleza e perfeição gráfica das pranchas. Foram elas executadas em madeira (para posterior retirada de cópias em papel) no atelier de Ticiano por um de seus discípulos, Jan Stephan Van Calcar. Algumas pranchas são atribuídas ao próprio Ticiano, e as figuras anatômicas são representadas ao ar livre, tendo como fundo paisagens reais dos arredores de Pádua. Por sua ousadia foi Vesálio condenado pelos tribunais da “Santa Inquisição” a fazer uma viagem de arrependimento à Terra Santa (como comutação à pena de ser queimado). No retorno, teve seu navio naufragado. Conseguiu chegar salvo a Zante, uma ilha do mar Jônio, onde morreu logo a seguir.
Texto extraído de:
COSTA, Marcelo Lopes. Estórias da historia da medicina. Belo Horizonte: Cultura Médica, 1987.