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Poesias

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgio que em cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não possa casar,

acho que o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escravo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

- dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Antes do nome

Não me importa a palavra esta corriqueira.

Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,

os sítios escuros onde nasce o’de’, o ‘alias’,

o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, esta incompreensível

muleta que me apóia.

Quem entender a linguagem entende Deus

cujo filho é Verbo. Morre quem entender.

A palavra pe disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,

foi inventada para ser calada.

Em momento de graça, infreqüentíssimos,

se poderá apanha - lá: um peixe vivo com a mão.

Puro susto terror.

Explicação de poesia sem
ninguém pedir

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,

mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,

atravessou minha vida,

virou só sentimento.

Solar

Minha mãe cozinhava exatamente:

arroz, feijão-roxinho, molho de batatinha.

mas cantava.

A poesia, a salvação e a vida II

Eu vivo sob poder

que ás vezes está no sonho,

no som de certas palavras agrupadas,

em coisas que dentro de mim

refulgem como ouro:

a baciinha de lata onde meu pai

Fazia espuma com pincel de barba.

De tudo uma veste teço e me cubro.

Mas, se esqueço a paciência,

me escapam o céu

e a margarida-do-campo.

O espírito das línguas

Apropósito de músicos, ginastas, corcógrafos

digo na minha língua:

PUXA VIDA! VAI SER ARTISTA ASSIM NO

INFERNO!

É português como se fora russo.

Descuidada de que me entenda ou não,

falo as palavras,

para mim também e primeirdo,

incompreensível.

As artes falam humanês,

também as caras dos homens

escrevem o mesmo código.

O que é PUXA VIDA

VAI SER ARTISTA ASSIM NO INFERNO?

Só expressam as l´nguas nas clareiras

que o choque de uma palavra abre na outra.

Na Balgária, certamente traduz-se PUXA VIDA

por: BERIMBAU! FILIGRANAS DE RENDA!

Compreender o que se fala

é esbarrar na sem-caráter,

inominável, corisca poesia.

A menina e a fruta

Um dia, apanhando goiabas com a menina,

ela abaixou o galho e disse pro ar

inconsciente de que me ensinava –
‘goiaba é uma fruta abençoada’.

Seu movimento e resto iluminados

Agitaram no ar poesia e Espírito:

o Reino é dentro de nós,

Deus nos habita.

Não há como escapar à fome da alegria!

O nascimento do poema

O que existe são coisas,

não palavras. Por isso

te ouvirei se cansaço recitar em búlgario

como olharei montanhas durante horas,

ou nuvens.

Sinais valem palavras,

palavras valem coisas

coisas não valem nada.

Entender é um rapto,

é o mesmo que desentender.

Minha mãe morrendo,

não faltou a meu choro este arco-íris:

o luto irá bem com meus cabelos claros.

Granito, lápide, crepe,

são belas coisas ou palavravas bela?

Mármore, sol, lixívia.

Entender me seqüestra de palavras e de coisa,

arremessa-me ao coração da poesia.

Por isso escrevo os poemas

pra valer o que ameaça minha fraqueza mortal.

Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,

é o Espírito quem me impele,

quer ser adorado

e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:

baldes, vassouras, dívidas e medo,

desejos de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.

Não construí as pirâmides. Sou Deus.

As palavras e os nomes

Me atordoam da mesma forma os místicos

e as lojas de roupas com seus preços.

O dente apodrece

se que eu levante um dedo pra salva-lo,

já que escolhi o medo

como meu deus e senhor.

Tem pó demais na prateleira dos livros

e livros em demasia

e cartas cheias de si me atravancando

o caminho.

‘Escrever para mim é um religião.’

Os escritores são insuportáveis,

menos os sagrados,

os que terminam assim as suas falas:

‘Oráculos do senhor.’

Eu fico paralisada

porque desejo a posse deste fogo

e a roupa de talhe certo,

com tecido de além-mar.

Meu nome agora é nenhum,

diversos dos muitos nomes

que se incrustaram no meu.

Aia! o melhor.

Aia, a criada de dama nobra,

a dama de companhia,

a que tem por ofício

anotar no papel a vida

e espiar pela fresta

a ama gozando com o rei.

Borboleta, esta grafia,

este som é um erro

e os erros me interessam,

sacrifício as aranhas para saber

de onde vêm.

A natureza obedece e é feliz,

não exborda de Deus.

Mas eu o que sou?

Adélia Prado

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