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PSICANALISE E CLINICA DE BEBES: ENTRE CORPO E ORGANISMO, A LINGUAGEM.
SANDRA SEARA KRUEL
PSICANALISTA – CPMG

Esse trabalho busca ser uma elaboração sobre a posição do psicanalista na clinica com bebês. Como podemos tratar do bebê se ele não esta em analise? A preocupação é distinguir discurso da psicanálise do discurso da ciência que tende a imperar nesse campo. Trata-se ainda de distinguir a posição do analista frente aos pais e frente ao bebê. O discurso dos pais tende a ser ouvido prioritariamente e o bebê tende a ser alvo ou de observações ou de condutas de maternagem.

O psicanalista, de modo distinto, diante do bebê, estará à escuta daquilo que é da incidência da linguagem no ser humano. Uma vez que a constituição do sujeito se dá no campo do Outro, podemos perguntar como é que um bebê se faz sujeito diante do desejo dos pais?

A referência é ao primeiro semestre de vida, uma vez que o período dos seis aos dezoito meses foi amplamente teorizado pela psicanálise: fase do espelho, posição depressiva, espaço transicional, etc. Já a alucinação do seio, as mudanças de tônus, o sono libidinal, o sorriso social, os gestos de recusa são, as manifestações no primeiro semestre que, às vezes, são pouco estudadas, mas que representam importantes indicativos de um fazer-se sujeito como efeito de linguagem.

O objetivo, ao trabalhar esse período, é focalizar o nascimento do ser humano para a linguagem. Isso quer dizer tanto a apropriação da linguagem pelo bebê como ainda as conseqüências de perda de gozo que advém do fato do ser humano habitar a linguagem. A criança se apropria da linguagem de forma sincrônica e isso se inicia desde os três últimos meses de gravidez.

Porem a dimensão da linguagem para a psicanálise vai muito alem da aquisição da fala pela criança. Vamos trabalhar aqui a dimensão de cifração do gozo e a dimensão do dar sentido.

A estrutura psíquica se constitui primariamente como cifração do gozo na linguagem. Deve ser essa a razão da freqüência dos fenômenos psicossomáticos na primeira infância As sensações corporais são geradas e/ou acompanhadas pela concatenação e modulação de sons. Junto com os ritmos biológicos ficam emaranhados os ritmos não-biologicos que advêm da própria tessitura do discurso do Outro. A linguagem afeta o corpo assim como a disciplina da psiconeuroimunoendocrinologia tem demonstrado. A pulsão é a primeira modificação do real em sujeito sob o efeito da demanda do Outro.( sem. Identificação ,lição de 30 de maio de 1962). O tecido do gozo é a própria textura da linguagem. A satisfação pulsional erogeiniza o corpo modificando o organismo.

Os efeitos de sentido são secundários quanto à estrutura. Esses efeitos advêm da copulação da linguagem com o corpo imaginado. A imagem do corpo é uma solução de integração para o corpo recortado pela pulsão. Assim a erogeinização do corpo cifrado na linguagem é agora reunido coordenado e harmonizado pela imagem totalizante.

É o Outro maternante que interpreta os gestos e movimentos e choro do bebe atribuindo uma significação a eles. Através disso, um sentido, uma direção, um lugar significante é atribuído ao ser recém nascido que ali esta.

A tendência a dar sentido e a interpretar o que o bebe esta sentindo no seu corpo é bastante grande na clinica com bebes. O psicanalista também tende a interpretar os sentimentos do bebe tanto quanto a família e outros que lidam com o bebe. Porem o psicanalista pode criticar essa tendência à hermenêutica uma vez que ele conhece os efeitos narcísicos do Imaginário.

No entanto, o efeito de sentido é fundamental para a inscrição do Nome do Pai. O Nome do Pai são os pontos de basta que retroagem sobre os ditos de forma a lhes atribuir uma significação que é sempre fálica. É o Outro que atribui significação aos ditos na medida em que pontua, corta e devolve a mensagem invertida ao sujeito.

É assim que podemos entender a colocação lacaniana de que o autismo é a forclusaõ do sentido. Faltaram os pontos de basta que fossem modular para o bebe a sua historia significante e a sua imagem corporal. A linguagem aí será só concatenação de sons desencarnada e sem direção podendo se tornar um parasita intrusivo para o ser. A linguagem divorciada da vivencia é do que sofre o psicótico fazendo com que a textura da linguagem possa significar para ele um gozo intrusivo.

É o que acontece quando o Outro se apresenta ao bebe como esférico, liso e sem furo.

As pesquisas dos cognitivistas sobre a inteligência e capacidade mental do recém nascido nos assinalam a importância da prosódia, isto é, da modulação da linguagem falada, para o reconhecimento pelo bebê da separação e diferenciação dos fonemas, sendo a diferença fonematica o fator que permite a assimilação sincrônica da linguagem.

A prosódia parece estar ausente na fala de mães de autistas, em particular a prosódia referente à surpresa. Sabemos, pela psicanálise, que algo se transmite ao psicótico por três gerações, o que implica que não podemos atribuir a psicose da criança à atitude da mãe.

A falta de entonação de surpresa na fala da mãe do autista indica que não ocorreu a crise subjetiva que em geral acompanha a gestação ou parto. A imagem que a mãe carrega da criança durante a gestação geralmente sofre abalo quando do nascimento da criança real. Porem pode-se observar casos de pessoas que mesmo passando por problemas reais de doença, acidentes ou mesmo guerras não produzem crises subjetivas, pois seu sistema fantasmático de crenças e saber não sofre mudança. São casos em que mesmo passando por sofrimentos, a pessoa 'compreende'o que esta sofrendo. Esses casos apontam um limite para a psicanálise, pois não há, assim, nem transferência nem demanda de analise.

No caso extremo da estrutura psicótica é que talvez possamos enxergar mais nitidamente a função positiva para a criança das crises subjetivas da mãe. Parecem funcionar como um furo ou barra no Outro que transparece na modulação da linguagem. Os casos de autistas com mutismo que falam quando o terapeuta sofre um susto inesperado parecem apoiar essa idéia.

A forma mais radical da experiência da demanda é a demanda que se define como algo que se repete. A repetição do significante levando a uma repetição da experiência de satisfação em nada cerne quanto ao real. Lacan nos demonstra isso com o corte em oito interior feito num toro. (seminário da Identificação)

A repetição da demanda só cerne algo do vazio quando o corte sobre o toro é em oito interior, o que em termos clínicos se refere à repetição da demanda que segue o tempo em que a demanda é decepcionada (deçue), é negada, isto é, não resulta em satisfação. É esse o corte que engendra a superfície do sujeito sob forma de toro.

Em seus textos Vera Vinheiro (Letra Freudiana –RJ) argumenta que o autista não teria acesso ao Outro barrado. Porem o autista definido como excluído do Outro não quer dizer sem Outro. O Outro do autismo é um Outro liso, esférico. Não há possibilidade de alienação a não ser que haja um furo no Outro, um Outro torico. Por não achar meios de se alienar o autista recusa o campo do Outro.

Esse Outro esférico poderíamos pensá-lo como tecido de gozo, levado à satisfação da demanda. Ou ainda, pensando sujeito e Outro em termos moebianos, a não Ausstosung, a não expulsão pelo sujeito desse campo do Outro. Mesmo que o tecido de gozo seja estruturalmente, por si só, falho, o sujeito não encontrou aí as falhas inerentes à estrutura da linguagem. Não houve perda de gozo.

Efetivamente vemos no seminário "..ou pior" que a recusa é parte integrante da estrutura da demanda: Eu peço que recuses o que te ofereço por que não é isso. Como poderíamos entender essa afirmação? O sujeito abre mão de uma satisfação pulsional, o sujeito promove uma perda de gozo, para que possa configurar, para que possa ter acesso ao campo do desejo, campo de interrogação sobre o desejo do Outro. A criança pergunta para seus pais: Você me pede isso, mas o que é que você quer ao me pedir isso?

O sujeito é sujeito quando a pulsão sofre o destino de zielgehemmet (inibido quanto ao objetivo). O Outro falta o que faz com que nem sempre a pulsão tenha o destino da satisfação. Se toda pulsão levasse sempre a satisfação não haveria trabalho psíquico e o homem seria só animal havendo harmonia entre o mundo interno e o meio circundante. A demanda será somente uma serie repetitiva. Porque o Outro falta, nem sempre está la para atender as demandas do sujeito. O simbólico não recobre totalmente o Real; a linguagem não consegue expressar todas as sensações corporais. Em função do furo constitutivo da estrutura psíquica o ser se faz sujeito e assim se humaniza.

O Outro barrado, capaz de se afetar em seu saber pelo encontro com o Real da criança recém nascida, é a condição para a inscrição do Nome do Pai, para a possibilidade de uma estrutura neurótica.

Porem também é preciso dizer que em certas formas de estabilização da psicose existem diversos efeitos de sujeito.

Gostaríamos de definir sujeito aqui também com relação à linguagem. A linguagem por ser cheia de equivocidades é basicamente um sistema indecidivel para o qual necessário se faz uma intervenção "externa" (o sujeito) graças a que decisões são tomadas. Freud sempre assinalou a escolha de palavras, por exemplo, nos lapsos de língua, que cada sujeito usa para expressar um pensamento depende de escolhas forçadas inconscientes enraizadas na historia significante de cada sujeito. As palavras possuem duplo sentido e a língua contem um sem numero de equivocidades desse tipo e cada frase ou expressão que usamos advêm do sujeito do inconsciente. Lacan no seminário 'O synthoma', nos diz que toda invenção é um sintoma:

"Criamos a linguagem na medida em que a cada instante lhe damos um sentido. (...). A cada instante damos uma cutucada sem o que a linguagem não seria viva. A linguagem é viva na medida em que a cada instante ela é criada. E é nisso que não existe inconsciente coletivo, só existem inconscientes particulares, na medida em que cada um, a cada instante, da uma cutucada na língua que fala".

Se o psicótico inventa um código pessoal, o neurótico também transforma de forma singular o código de língua comum a todos. Freud, nas Conferencias Introdutórias de 1915, diz que uma definição possível de "normalidade" poderia ser a capacidade de formar sintomas.

Assim fazer-se sujeito é também desenvolver sintomas. Encontra-se na anamnese de crianças com distúrbios psicossomáticos a tendência da mãe querer eliminar com rapidez as pequenas manias que o bebê adquire: o apego a um cobertor, a preferência por certo ritual de adormecimento, o interesse por certo objeto, etc. Entendemos essas pequenas manias ou hábitos como invenções sintomáticas do próprio bebe. São formações do inconsciente tanto quanto os sintomas e distúrbios somáticos que pode vir a apresentar, A cólica dos 3 primeiros meses sendo o paradigma da psicossomática na primeira infância. Estamos dando ênfase aqui às manifestações do bebe no primeiro semestre de vida.

Assim podemos concluir sobre a posição do analista na clinica com bebês. No caso da psicose, o psicanalista em geral é chamado a intervir no tempo que poderia ser chamado de 'tarde demais", onde a psicose parece já estar instalada. Porem, nunca é tarde demais para sustentar que a criança desenvolva as formações simbólicas que ela se sinta capaz de suportar. A idéia de 'tratamento do Outro' adiantada por Alfred Zenoni pode orientar o psicanalista a não permitir que o Simbólico se torne um gozo intrusivo intolerável para o psicótico.

Assim podemos conclui que tanto na psicose como na neurose, assim como nos fenômenos psicossomáticos da primeira infância, o psicanalista se interessa pelas formações sintomáticas, entendidas aqui em sentido amplo, que o bebê vier a apresentar, não para eliminá-las, está claro, e sim, como em qualquer psicanálise, escutar a verdade sobre a estrutura ali contida.

A psicanálise com bebes estará a escuta do sujeito. O psicanalista estará à escuta das cutucadinhas dos bebês, como cada bebe inventa a linguagem a seu modo.

Trabalho publicado na revista EPISTEMO-SOMATICA
Agosto de 2006

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