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MOURA, Marisa Decat de (ORG). Psicanálise e hospital 5 – A responsabilidade da Psicanálise diante da Ciência Médica. Wak Editora: Rio de Janeiro, 2010. |
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PREFÁCIO
A organização de um colóquio acerca do tema da responsabilidade do analista advém a partir de uma interlocução, que teve lugar em Belo Horizonte no ano de 2007, com o colega Serge Lesourd, da Universidade de Estrasburgo. Durante uma conferência na Universidade Federal de Minas Gerais, o professor Jeferson Machado Pinto interpelaria Lesourd acerca da responsabilidade da psicanálise nas formas de sofrimento psíquico da contemporaneidade. No cerne das manifestações psicopatológicas de nossa era – que, a despeito de sua variedade e particularidades, trazem a marca da ruína dos ideais coletivos, da proliferação das demandas de gozo patrocinadas pelo capitalismo tardio, e de um sofrimento de indeterminação, solidário da depreciação ideológica acerca das significações metafísicas da natureza e da natureza humana – não seria possível entrever a sombra da crítica freudiana da cultura? Não teria Freud engrossado as fileiras daqueles que, na aurora do século XX, atacando a consistência doutrinária dos discursos da moral vitoriana teriam contribuído para o devir de um mundo desprovido de discursos reguladores, desertado de referências para o pensamento e para a ação morais e livrado, portanto, à anomia, ao hedonismo e ao desolamento? Ali se delinearia, então, uma primeira versão das indagações a respeito da proposição ″responsabilidade do analista″: qual a responsabilidade da psicanálise nas configurações subjetivas e sociais que o mundo conheceria a partir do pós-guerra? Quais seriam as matrizes de sua implicação no advento, para utilizar a expressão de Weber, de um ″mundo desencantado″? Nessa ocasião, o prof. Lesourd argumenta que a psicanálise teria deixado como saldo para a reflexão antropológica contemporânea duas proposições fundamentais. A primeira delas referente ao fato de que a pulsão é aquilo que fundamentalmente se satisfaz, ou que mira a satisfação na pluralidade contingente de objetos que lhe são disponibilizados. E a segunda, não menos importante, de que a psicanálise teria demonstrado a impossibilidade da satisfação cabal dos apelos pulsionais. Tanto em Freud quanto em Lacan se poderiam recolher apontamentos acerca do fato de haver sempre, no âmbito da exigência de satisfação das pulsões, um resto, um resíduo, uma impossibilidade estrutural do gozo absoluto, condição mesma para o advento do desejo como uma experiência ética. Para Serge Lesourd, contudo, no esteio do ideário do capitalismo tardio o que se pode constatar é um conveniente recalcamento dessa segunda proposição, e que coexiste com a elevação da primeira delas quase que à condição de lema. O que poderia ser então traduzido pela constatação de que, ideologicamente convencidos de que não há barreiras quaisquer que se interponham às aptidões de gozar, e sob a batuta do mandamento liberal de servir-se à exaustão da mercantilização dos modos e objetos de satisfação pulsional, a isso se consagram tenazmente os sujeitos e as coletividades de nossa era. E isso, até que a irrupção do sintoma lhes traga de volta, temperada em sofrimento, a lembrança dessa segunda proposição. Diferentemente do que se fazia ouvir a partir do divã do criador da psicanálise, o sintoma em sua versão contemporânea não parece tanto mais responder à função de cifrar uma satisfação pulsional recalcada a partir das injunções categóricas de um supereu hipermoral. Ao contrário, o sintoma agora se revela como o obstáculo que se interpõe diante da execução cabal de todas as aptidões para o usufruto do gozo, instigadas, diga-se de passagem, por uma versão não menos severa do supereu. ″Goza″! Se outrora essa era a voz que se discernia no interior do ruído produzido pelo próprio sintoma, agora ela advém de alhures – sem véus, mais ainda obscena – e encontra no sintoma a barreira que amortece sua reverberação ensurdecedora. O que teria, então, a psicanálise a ver com isso? Ou, levando a questão mais adiante, qual a sua responsabilidade nisso? Os artigos reunidos nesse livro têm em comum o propósito de não recuarem diante da elucidação desse cenário. Pois se por um lado é inegável que a envergadura crítica das obras de Freud e Lacan tensionaram a consistência da racionalidade ocidental a partir, respectivamente da incidência das noções de inconsciente e gozo, contribuindo inegavelmente para a assimilação de uma noção de subjetividade em conflito, clivada, descentrada; por outro lado, a psicanálise justamente por encontrar seu fundamento na aspiração de dar lugar a uma experiência ética não deve, portanto, ser confundida com um discurso revolucionário. Não é responsabilidade da psicanálise atribuir a si própria a missão de apresentar-se como a via régia para a transformação do panorama social com base num juízo valorativo que lhe conferiria os privilégios do pathos da verdade, da justiça, do progresso ou do esclarecimento. A psicanálise nem é responsável pelas vicissitudes e transformações da subjetividade e seus modos de expressão contemporâneos, nem sequer deve responder do lugar da instância reguladora e privilegiada de sua re-configuração. Sua função é menos revolucionar do que subverter. Subverter a relação que os sujeitos mantêm com as injunções discursivas e modalidades de satisfação que ostentam. Tendo como bússola o advento do desejo e a confrontação com a perda necessária de gozo à qual ele está indissoluvelmente conectado. O cenário-causa desse livro são os desafios colocados pela presença do dispositivo analítico no Hospital Geral. Cenário cingido pelo atrito entre o apelo inexorável do sujeito que se confronta com as miragens da finitude que o adoecer lhe impõe e os rigorosos protocolos da ordem médica. Cenário marcado, portanto, pela deflagração de um gozo despropositado, inconveniente e muitas vezes radicalmente contraposto às direções do tratamento médico. No hospital, o psicanalista recolhe e maneja a irrupção da subjetividade inconsciente, o que lhe confere distinção num corpus clínico multifacetado, mas reunido sob os auspícios do discurso da ciência. Os efeitos de gozo que o adoecimento e o trauma impõem são justamente aquilo que faz barreira aos propósitos técnico-instrumentais da racionalidade do dispositivo médico. Nada pior do que o advento de um sujeito para turvar a objetividade protocolar do exercício da medicina contemporânea. Eis o psicanalista então convocado a mediar essa não-relação médico/paciente. As particularidades de sua inserção, os impasses, os caracteres específicos dos diferentes serviços de assistência à saúde, as exigências de formulação de uma racionalidade sobre fenômenos tais como a cirurgia bariátrica ou a reprodução assistida, dentre outros aspectos da presença do analista no hospital são objetos dos vigorosos artigos aqui reunidos. Mas, na medida em que a questão da responsabilidade do analista diante da ordem médica e do discurso da ciência consiste num capítulo de uma questão mais ampla, a saber, aquela da responsabilidade da psicanálise na contemporaneidade, outros temas são também debatidos em artigos desse livro: o estatuto da contingência na teoria e práxis da psicanálise; a política da psicanálise no debate clínico contemporâneo; aspectos fronteiriços entre o discurso jurídico e a psicanálise; novas contribuições às teses psicanalíticas sobre o corpo, a feminilidade e os transtornos do afeto. Dividida em três partes – a responsabilidade da psicanálise; a clínica psicanalítica; a interlocução da psicanálise – a obra se faz capaz de, tomando como eixo o debate psicanálise/medicina, não descuidar dos demais aspectos que cingem a circunscrição dos desafios da psicanálise no mundo contemporâneo. Em seu artigo, Claude Schauder nos lembra de um apontamento de Lacan, em 1956, acerca de um futuro no qual os analistas poderiam vir a exercer na cultura a função de ″termo de referência″. Os organizadores dessa coletânea, Glauco Batista, Marisa Decat de Moura e Simone Borges de Carvalho desempenham, na Clínica de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei, um trabalho cuja sofisticação, repercussão e excelência são reconhecidamente uma referência na psicologia hospitalar brasileira, e cujos ecos se fazem reconhecer também no exterior. Materializando com seu trabalho e agora com mais essa publicação a assertiva de Lacan, em sua pretensão de sustentar o lugar do analista não só no hospital geral, mas também na cultura e na racionalidade de nosso tempo. Guilherme Massara Rocha |
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